domingo, 1 de fevereiro de 2009

Interruptor



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Você já tinha voltado há um certo tempo, mas ela demorou para perceber. Você mesmo não tinha percebido até ela reparar que
- Você voltou. Há quanto tempo você chegou?
- Nem sei se eu devia estar aqui.
- Por que sumiu daquele jeito? Faltava pouco para o natal, não te vi mais, não nos falamos nos últimos dois meses.
- Desculpe, mas tem alguma coisa no meu sapato, acho que é uma pedrinha.
Enquanto sacode o sapato, você se pergunta se há sobras do almoço na geladeira. A geladeira faz um barulho estranho. Antes que você possa dizer, ela chega mais perto para saber se
- Você tá com fome? Sobrou um pouco de pernil, arroz e farofa do almoço.
- Era tudo que eu poderia querer.
- Tudo?
- Uma cerveja também.
Ela nem se moveu, apenas ali parada te olhando como quem lê um cartaz qualquer. Aproveite bem, pois o tempo que este olhar durar pode ser o tempo que falta, afinal, embora saiba que está para acontecer, você não sabe quando exatamente. Pode ser muito de repente, como saber? Pode ser a qualquer momento. Torça para que dê tempo ao menos de você dizer a ela que
- Vai acabar. Me dá sua mão só um instante e me ouve bem, olha nos meus olhos que é sério... Tudo vai acabar, mas não fica com medo, tá?
- Do que você tá falando? Da gente?
- Não. De tudo. Voltei com medo de que não desse tempo.
- Não brinca desse jeito, você parece maluco quando fala assim.
- E você sabe que sempre falo sério. Nunca tive senso de humor.
- Nunca teve.
- Pois é. Então...
- Você falava aquelas merdas, ninguém nunca deu ouvidos. Nem eu na maioria das vezes.
- Quando eu falava de açúcar salgado?
- E de fogo gelado, e de uma mosca engolindo sapos.
- E de chuva de guarda-chuvas, e de amor sincero.
- Amor sincero...
E vocês caem na gargalhada como há tempos não acontecia, mesmo na época em que você ainda estava aqui no antes. No agora, a gargalhada é doce, mas soa melancólica também. Vocês vão parando de rir aos poucos, ela enxuga uma ou outra lágrima enquanto ainda sorri bem leve. Você conseguiu mesmo, não é? Ela te olha, vocês em silêncio se olham. Nem perca seu valioso tempo perguntando se ela tem
- Alguém para quem você queira ligar?
- Daria tempo?
- Na verdade, não. Não sei. Acho que não.
- Então não. Só me abraça.
- Te abraçar.
- É, por que?
- Eu ia te pedir o mesmo.
Já não havia mais razões para poses nem planos. A qualquer segundo, você nem sabe como ou exatamente quando. Nem sabe se vai ter barulho que anteceda, luz colorida, brilho ou fumaça. Você sentado à mesa de jantar, ela encostada na pia. Vá em direção a ela, que ela já se afasta num impulso do mármore úmido. Esse longo caminho de dois metros, vocês anseiam pelo toque abandonado há meses, tomam seus últimos fôlegos, abrem seus únicos braços e se aproximam ansiosamente torcendo para que ainda haja temp

5 comentários:

Flavia disse...

será que dá pra saber o que outra pessoa precisa escutar exatamente no momento em que ela precisa escutar?
neste caso ler.

não vou dizer que você salvou minha vida a tempo porque seria exagerado, mas você acaba de me salvar de perder mais meu tempo me perdendo de quem eu deveria encontrar.

obrigada, obrigada, e obrigada.

Marcos AM Ramos disse...

Flavia, agradeço os seus agradecimentos. Depois de tanto tempo sem postar aqui, eu reapareço e ganho como prêmio um comentário tão veloz quanto sensível!
"A gente sempre acha que há tempo até que seja tarde demais...", já dizia uma música desconhecida de um compositor desconhecido.
Bjs

mario elva disse...

Excelente texto.

Marcos AM Ramos disse...

Obrigado, Sr. Mário. Sua apreciação é sempre, ãhn, apreciada =)

Monique disse...

Excelente texto,de muito bom gosto e sensibilidade!Vc é MARA,querido professor!Sou sua fã!