segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

2007



Pois é, chegamos! Chegamos ao final de 2007, e cá estou eu pra registrar o momento com a última postagem do ano. Aí em cima, vocês podem ver 2007 recebendo o que merece.

Muita, mas MUITA coisa mesmo aconteceu em 2007, ao menos até onde posso falar por mim. Muita merda, muitos erros, muito aprendizado. Praticamente nada que se aproveite de um jeito alegre, mas muito que se aproveite de um jeito útil, e isso já é algo. No momento apenas algo útil, mas que em 2008 pode vir a se mostrar algo bom.

Em muitos aspectos, 2007 foi um ano de ciclos girando velozmente, repleto de esperanças que foram renovadas e quase que automaticamente destruídas. Mas se pensarmos um pouco no mito da Fênix, talvez possamos acreditar que, se este ano termina em cinzas, é bem possível que o ano que vem comece com um vôo para o alto e avante. Mas nada disso de começar do zero. Não, nada disso. Começar do zero significaria desmerecer todos os acontecimentos desgraçados vividos até agora. O murro dado com gosto em 2007 é apenas uma retribuição final por todos os murros que este ano nos deu ao longo de seus doze meses esquisitos. A diferença é que sempre conseguimos nos reerguer após cada porrada, mas 2007 não terá a mesma chance: seu nocaute é seu fim, sua morte, marcada para meia-noite de hoje para amanhã.

Então cicatrizem-se, recomponham-se e respirem fundo!!! Vamos entrar em 2008 com a consciência de que tudo sempre pode piorar, mas que não cabe a nós contribuir para isso e nem aceitar que seja assim. Ainda há a possibilidade de que tudo melhore, e é nisso que vamos nos agarrar, e todas as novas merdas que vierem (e acredite, elas virão) serão enfrentadas, chutadas e superadas, assim como foram no ano que hoje termina.

A gente se vê no ano que vem, com novos ensaios, novos contos, novos qualquer coisa. Espero que vocês tenham boas novas para me contar em retorno ao que eu escrever aqui.

BOA SORTE em 2008!!!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Natal



Muito tempo sem escrever aqui, sem coisa alguma para apresentar neste blog. Cabeça vazia ou cheia demais? Muita bagunça por dentro, mas também muita bagunça ao redor.

Sábado passado fui ao shopping comprar algo para dar de presente de natal pra quem me importa. Nada de extras, nem politicagens, nem diplomacia: presentes, só pra quem quero bem. Na volta, por preguiça de andar até o ponto, peguei uma kombi que passava pela Portuguesa e depois seguia até a Praia da Bica. Até aí nada demais. A kombi foi vazia, de passageiro só eu. Nunca tem muitos para o Jardim Guanabara. Foi quando, pouco após a igrejinha da praia, outra kombi passou pela nossa com uma mulher (que seria a trocadora daquela kombi) gritando e gesticulando obscenidades pela janela do carona. Pelo jeito como o motorista da kombi onde eu estava respondeu, aquilo era a continuação de uma briga que começou em algum outro lugar, em algum outro momento. Seguimos em frente e eu pedi para que o motorista me deixasse no ponto da esquina da minha rua, mas ele parou misteriosamente uns 20 metros antes e ficou olhando para o retrovisor. Foi quando a tal outra kombi da mulher gritando freiou cantando pneu e parou na frente da nossa, e a mulher veio berrando e apontando o dedo pra cara do motorista, dizendo que ele não era homem, coisa e tal. É nesse momento que eu descubro que tudo se originou do fato de o cara ter ofendido ela, chamado de sapata e coisas do tipo, sei lá quando. Ela era sapata mesmo (ela admitiu aos brados naquele momento), mas disse que aquilo não era da conta dele, que era um covarde, corno, viado, babaca, etc. e disse que ia largar chumbo nele.

Já não acreditando que aquilo estava acontecendo faltando poucos metros pra eu descer, meu espanto aumentou quando o babaca do motorista acelerou com tudo pra cima da mulher, subindo pela calçada de forma brutal e acidentada. Ela desviou por pouco, correu até a kombi de onde tinha vindo e pegou uma arma. Pois é. A promessa que tinha feito durante a discussão não foi brincadeira: ela começou a atirar contra a gente, e eu deitei no chão do carro, puxando comigo o menino de aproximadamente 6 anos que estava ao meu lado (era filho da cobradora). Acho que os tiros foram pro alto (não vi, não dava, mas contei quatro), pois nenhum vidro estourou, e não ouvi impactos na lataria. O idiota do motorista acelerou pra fugir desesperado, passando muito do meu ponto, daí me levantei do chão e, xingando de irresponsável e outras palavras menos classudas, mandei ele parar pra eu descer. A cobradora juntou-se aos meus berros e o motorista foi forçado a parar. Desci ainda meio na adrenalina, e a kombi arrancou rapidamente, com a outra (da atiradora) em perseguição. Sumiram depois da esquina, e eu nunca saberei como terminou.

Cheguei em casa com uma sacola contendo camiseta, sandália e anéis dourados, presentes para aqueles a quem amo, a quem eu ainda estava vivo o suficiente para amar. Intacto. Lavei minhas mãos na pia da cozinha com detergente, bebi uma água gelada e me lembrei de que aquela era a terceira vez em 2007 em que eu ficava à mercê de tiros tão de perto (contadas uma na esquina da Rio Branco com a Visconde de Inhaúma na hora do almoço, outra na linha vermelha sábado à tarde, passando de moto entre viaturas e policiais agachados disparando seus fuzis). “Lugar errado na hora errada” virou uma constante da qual sinceramente abro mão.

Então, este fica sendo meu conto de natal. Feliz natal pra você.

sábado, 1 de dezembro de 2007

30



Dia 24 de novembro é meu aniversário. Sou sagitariano, se é que isso importa. Se você olhar bem no seu calendário agora, verá que o deste ano já passou, foi sábado passado, quando completei 30 anos. Confesso que eu estava numa grande expectativa, pois dizem que o ano novo de cada um acontece em seu próprio aniversário, não no reveillon. Não sei exatamente o que eu estava esperando, mas sei que seja lá o que fosse, não aconteceu. Ou ao menos ainda não.

“E aí, está se sentindo mais velho?”, me perguntam. “Não”, eu respondo. “Está ficando mais sábio, hein”, afirmam esperando que eu não diga nada a respeito. “Isso, com certeza, não”, eu digo. Sábio não, mas com certeza mais experiente graças às merdas que já me aconteceram até hoje. Afinal, isso é inevitável, não um mérito meu. Mérito talvez eu tenha em, de fato, estar aprendendo alguma coisa qualquer, mas isso não significa necessariamente que eu tenha ficado mais sábio, pois erros ainda os cometo. A diferença é que antes era sempre por acidente, e um pedido de desculpas às vezes bastava pra colocar as coisas em ordem, e agora tento me ater aos meus erros pensados, refletidos e executados com verdadeira vontade, ou como dizem na faculdade de direito, com dolo. Cada vez mais eu erro porque quero, não por achar equivocadamente que estou fazendo o certo. Eu sei o que é um erro meu e o quanto ele pode ser errado, mas eu posso querer errar, e não pretendo pedir desculpas a não ser que o resultado seja diferente daquele que eu esperava conseguir com meu erro. Por outro lado, se agindo de tal forma eu conseguir o que queria, é isso aí e acostume-se.

Faz tempo que desisti de colocar tijolinhos no céu. Errar é humano, e eu estou apenas reivindicando meu quinhão nessa brincadeira. Não confunda isto com eu ser mau, de jeito nenhum. Não estou virando nenhum criminoso, longe de mim, nem estou destruindo vidas alheias. Apenas resolvi virar o responsável por mim mesmo, tirar a responsabilidade da minha felicidade das costas dos outros. Minha alegria e minha satisfação não dependem de ninguém além de mim, e simplesmente aqueles que se opuserem ou quiserem amerdalhar a minha vida em maior ou menor grau serão excluídos da minha convivência. Esses que assumam as conseqüências de seus atos, como declaro agora buscar sempre assumir as conseqüências dos meus. Se alguém quiser sacanear com a sua vida, deixe enquanto você quiser e achar que agüenta, mas tenha consciência disso, e não caia na asneira de depois ficar choramingando por aí dizendo “fulaninha só me sacaneia”, “fulaninho estragou minha vida”, etc., como se você mesmo não tivesse de alguma forma permitido que isso chegasse a esse ponto. Assim como cada vez erro menos por acidente e mais conscientemente, da mesma forma eu permito que errem comigo e vacilem comigo o quanto eu achar que aceito/agüento. Depois disso, é tchau e benção.

Já me apontaram muito o indicador em tom de acusação, me colocando mais rótulos do que num encarte de supermercado, mas sempre que sou tachado de algo não consigo mais deixar de pensar “e você não?”. Ah, vá ser hipócrita na putaqueopariu!!! O que um faz de errado agora o outro provavelmente já fez um dia. Ou fará. Ninguém é só luz e ninguém é só trevas: HUMANOS, tão belos quanto podres, tão perfeitos quanto falhos, aqueles que estão entre os anjos e os demônios.

Repetindo pra ficar claro: você e eu somos apenas
HU-MA-NOS!!!!!!!!!!!

Por fim: não, não me sinto com 30 anos. Aliás, que conceito seria esse? Isso não existe, cara. Isso é só uma questão de calendário.

Então, desestressa e assume sua parte no que te acontece de bom ou de ruim. Nós ainda faremos muitas coisas nessa vida, acertando quando der e errando se for o caso... O que vale é que façamos as coisas cada vez menos “sem querer”. E você entenda isso como quiser.

Agora me dá licença que eu preciso prosseguir com meus 30 anos. Preciso continuar acertando e errando, assim como você, assim como qualquer um. Humanos, lembra?

sábado, 17 de novembro de 2007

Epístola



Caravaggio pintou a tela acima, apresentando o momento em que Paulo tomou sua cacetada divina e converteu-se, passando então a atuar como apóstolo. No fim, foi preso e decapitado, escapando da crucificação só por ser cidadão romano (Jesus, o cristo, não teve a mesma sorte). Mais tarde, tornou-se santo, estado, capital e time de futebol pentacampeão brasileiro.

Enfim, o que me traz aqui é o fato de que atribui-se a São Paulo um dos textos mais famosos e bacanas da Bíblia, encontrado no capítulo 13 de sua primeira epístola à igreja da cidade grega de Corinto (ou seja, I Coríntios 13). Entre uma variação aqui e outra ali, escolhi a que está abaixo para postagem. Decidi fazer isso porque o texto é sempre citado parcialmente, e esses seus excertos já inspiraram títulos de livros, filmes, poemas e músicas para um público que nem sempre sabe a origem do que consome. Pois então, aqui está o texto na íntegra, para que você não mais o conheça apenas em parte:

"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse Amor, nada disso me aproveitaria. O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O Amor nunca falha. Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor".

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Cinzento


Sexta passada, dia de finados. Sempre chove no dia de finados, mas nesse caso isso só foi verdade na madrugada de quinta pra sexta, pois o dia em si foi de sol, embora um sol estranho. Sexta, sábado e domingo de sol estranho, sol forte, chuva forte, mormaço e céu cinza, dias de um clima propenso à meditação e à reflexão, ou simplesmente a nada.

Da minha parte, eu queria ir à praia. Há muito tempo eu não caminhava descalço pela areia, nem parava pra olhar o mar. No fim das contas, fiquei sem paciência para me deslocar até Ipanema (quem me conhece sabe que é meu lugar preferido nesses casos), então apenas coloquei uma bermuda, meus chinelos e desci para a Praia da Bica, bem perto de onde moro. A praia é um lixo, e digo isso literalmente. A água é verde, a areia é repleta de restos de todas as coisas possíveis, incluindo cacos de vidro. Não me importei muito com isso, eu precisava andar descalço, sentir a areia por pior que ela fosse. A água é da baía de Guanabara, nada de ondas, ao menos não significantes. Suficientes talvez para serem saltadas em algum ritual de ano novo, mas eu sinceramente não recomendo entrar naquela água.

Não havia muita gente por lá nesses dias, pois o tempo estava muito instável. Especialmente no domingo, o céu ficou bem cinza, e eu caminhei por muito, muito tempo, indo de um extremo ao outro da praia pela areia deserta. No MP3, eu ouvia o álbum Love Story, do Lloyd Cole, repetido algumas vezes entre meus álbuns do Cartola, entre outros.

Nessa de andar e pensar e olhar, eu parava às vezes, olhava a ponte Rio-Niterói, e como já disse lá em cima, tentava refletir sobre o que fiz e também sobre o que faço, sobre o que senti e sobre o que sinto, e fiz uma revisão sobre algumas coisas que insistem em foder com a porra da minha cabeça e me fazem pirar. Mas então tinha sido exatamente pra isso que eu tinha ido caminhar na praia, não é? Domingo, tarde de céu muito cinza, absolutamente ninguém na areia além de mim. Foi então que eu me peguei pensando em nada, por alguns breves segundos. Consegui repetir esse feito por mais uns breves momentos depois, e me deu vontade de sorrir com aquele certo alívio, e descobri que preciso fazer isso mais vezes. Recomendo.

Desliguei e tirei o MP3 dos ouvidos, me sentei na areia que já estava meio fria e úmida, abracei minhas pernas e fiquei ali olhando pro outro lado da baía, pra água, pra ponte, pro céu, pro nada, e resolvi ficar daquele jeito até cansar. Pensei ter ouvido o celular tocar, mas foi só impressão. Serviu pra eu ver as horas, e era hora de ir. Eu já estava chegando de volta em casa quando trovões muito fortes trouxeram a chuva. Eu estava satisfeito com aquela tarde, cansado de tanto andar, mas bem disposto. Eu estava sujo de areia suja, pés amaciados e sujos pela areia, foi como eu pretendia que fosse. Eu não estava feliz, mas também já não estava triste, nem com dor de cabeça. Não estava satisfeito com as coisas, mas também já não estava contrariado. E finalmente, debaixo do chuveiro, eu parei e me dei conta de que eu simplesmente estava nada, e isso era bom.

“Found a little piece of nothing and I clung on
Because even nothing feels like something
When something's gone”



terça-feira, 30 de outubro de 2007

Acontece



“Odeio como as pessoas hoje em dia tratam umas às outras como objetos, sem se aprofundarem, sem respeito, vivendo tão superficialmente e desconsiderando o sentimento dos outros, como podem ser assim...”, disse a bela menina-mulher, indignada com o comportamento repetidamente observado em suas tristes experiências, bem como nas noites cariocas. Na sexta-feira seguinte, ela saiu com amigas pra uma boate e ficou com dois caras: um marombado que a puxou pelo braço querendo um beijo, e em outro momento da noite, um tipo modelo, de cabelo com mechas loiras. Ela não sabe o nome de nenhum dos dois. Ela também não sabe, mas acaba de contrair hepatite.

“Ah cara, sinto tanta falta dela... Não entendo por que ela me deixou! Sei que fui muito ciumento e controlador, mas agora sei o que fiz de errado. Se ela voltasse pra mim, tudo seria diferente”, disse Gerôncio, chorando no ombro dos amigos. Sua ex-namorada aceitou voltar com ele duas semanas depois. Três dias depois de voltarem, Gerôncio já a chamava de piranha, vagabunda, a puxando pelo braço na frente dos outros em uma festa. Ele não gostou do jeito como ela dançava com aquela calça apertada em um quadril rebolante. Ele disse que, se ela o abandonar de novo, ele a mata.

“Oh, Astrogildo... Como eu te amo e amo muito, imensamente! Quero ter filhos com você, quero passar minha vida contigo! Vamos viajar no próximo feriado? Aliás, vamos começar a juntar dinheiro para tirarmos férias juntos e viajar pela Europa ano que vem?”, disse a jovem pendurada no pescoço de seu namorado. Isso foi numa quarta-feira. No sábado ela telefonou para Astrogildo, já de manhã cedo, dizendo que não queria vê-lo naquele fim de semana. Antes de desligar, ela pensou bem e decidiu que era melhor mesmo eles terminarem. Astrogildo não sabe até hoje o motivo. Na verdade, o que ele não sabe é que, de fato, não houve um motivo.


Os casos acima são fictícios (?), mas qualquer semelhança com histórias que você conheça não será mera coincidência. Você goste ou não, aceite ou não, as coisas acontecem assim (ou pior, as pessoas acontecem assim). Numa noite é “eu te amo demais como nunca amei ninguém”, no dia seguinte é “eu te gosto, mas acontece que não posso ficar contigo, não dá”. Os “porquês” ninguém nunca saberá, simplesmente porque eles talvez nem existam. Acontece desse jeito porque sim, sacou?

Ainda que você não reconheça algum dos comportamentos acima em si mesmo(a), conhece uma pá de gente que age assim. É comum. É isso aí mesmo. É assim que acontece e pronto....

. . .

Será mesmo?

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Nude



Don't get any big ideas
They're not gonna happen...

You paint yourself white
And fill up with noise
But there'll be something missing

Now that you've found it, its gone
Now that you feel it, you don't
You've gone off the rails

So don't get any big ideas
They're not gonna happen...

You'll go to hell for what your dirty mind is thinking


Música: Nude
Artista: Radiohead
Álbum: In Rainbows
Ano: 2007

sábado, 20 de outubro de 2007

Ø



Há muito tempo eu ouvi dizer
Que um homem vinha pra nos mostrar
Que todo mundo é bom
E que ninguém é tão ruim

O tempo voa e agora eu sei
Que só quiseram me enganar
Tem gente boa que me fez sofrer,
Tem gente boa que me faz chorar

Agora eu sei e posso te contar
Não acredite se ouvir também
Que alguém te ama
E sem você não consegue viver

Quem vive mente mesmo sem querer
E fere o outro, não pelo prazer
Mas pela evidente razão...
Sobreviver

Não é possível mais ignorar
Que quem me ama me faz mal demais
Mas ainda é cedo pra saber
Se isso é ruim ou se é muito bom

O tempo voa e agora eu sei
Que só quiseram me enganar
Tem gente boa que me fez sofrer,
Tem gente boa que me faz chorar

Quem vê seu rosto só pensa no bem
Que você pode fazer a quem
Tiver a chance
De te possuir

Mal sabe ele como é triste ter
Amor demais sem nada receber
Que possa compensar
O que isso traz de dor...

Tudo que isso me traz de dor...
O que isso traz de dor.

Música: Agora Eu Sei
Artista: Zero (participação de Paulo Ricardo)
Álbum: Passos No Escuro
Ano: 1985

domingo, 14 de outubro de 2007

Grito



"Não é o grito
a medida do abismo?
Por isso eu grito
sempre que cismo
sobre tua vida
tão louca e errada...
- Que grito inútil!
- Que imenso nada!"


O poema acima chama-se A Medida Do Abismo, de Vinícius de Moraes. No lugar dele, eu acho que não faria a incisiva condenação sobre o jeito de viver de seja lá a quem ele estava dirigindo este poema. Cada um sabe de si, penso eu, e acho que já deixei claro este meu posicionamento aqui em outros textos. Desde que não se ferre com a vida dos outros gratuitamente, é cada um na sua, do jeito que quiser, sem certos ou errados. Mas sei, ao mesmo tempo, que sempre acabamos fazendo nosso próprio juízo sobre a vida alheia. Então tudo bem, tenhamos nossas opiniões e façamos nossos próprios juízos, mas condenar, não.

Mas grite se quiser, também. Escolha: um longo AAAAAAAHHHHH, um palavrão, um pedido, o nome de alguém...

Você pode gritar, mas cuidado, pois ainda que um grito possa ser ouvido, ele pode não ser entendido, e isso é muuuuuito comum de acontecer...

"Disseste que se tua voz tivesse força igual à imensa dor que sentes, teu grito acordaria não só a tua casa, mas a vizinhança inteira."

Acho que é meio por aí. Muito bonito, poético e coisa e tal. Você pode gritar e acordar todo mundo, mas não creio que vão querer te dar ouvidos depois. Ao menos eu, se fosse acordado com um grito, acordaria no susto, e ficaria puto da vida. Pensando nisso, acho que sei o melhor lugar para se gritar: à beira do mar (o mar, sempre ele). Vamos escolher uma praia, uma tarde, um pôr do sol. Vamos ficar descalços e chegar na beirinha do mar, molhar os pés, respirar bem fundo e então...

... então...

...


... GRITAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARRRRRRRR!!!!!!!!!!!

sábado, 6 de outubro de 2007

Carta



Prezado (nome do destinatário),

Como vão as coisas? Tudo bem? Olha, sei que cartas estão meio fora de moda, mas desta vez será assim mesmo. Tem umas coisas que eu quero te falar, e quero falar agora. Te escrevo meio magoado, sim, mas mais perdido do que magoado.

Queria te dizer que andei pensando que deve ser bom, né? Deve ser bom não amar ninguém. Falo do amor romântico, o tal que é tema de filmes, canções e poemas sem fim. Deve ser uma paz, nunca se sentir vazio, nunca sentir como se faltasse parte de si. Nunca se preocupar demais com outro alguém (já que nada neste mundo está sob nosso controle). Não ter medo de ser abandonado, de que alguém se vá. Deve ser.

Imagino, não ter nada mais com o que se importar do que com sua própria saúde, seu próprio sucesso, sua própria felicidade acima de tudo. É possível que haja um sossego, uma paz de espírito em quem é, sinceramente, essencialmente, completamente e acima de tudo, apenas por si. Não, não deixe que te chamem de egoísta. Egocêntrico talvez, mas egoísta, não.

Suas diretrizes são simples e perfeitas: morar sozinho, não pensar em ter filhos, animais de estimação talvez e olhe lá. Absoluto em sua absoluta auto-cumplicidade, você nunca se sente só, pois você tem a você, e àquelas pessoas que inevitavelmente acabam convivendo contigo. Não sente falta de que te liguem, de que te procurem, de que se importem contigo. Por outro lado, sempre tem alguém que te liga, que te procura, que se importa contigo, ainda que você não busque por isso, não é mesmo? Sei lá, só me ocorreu que assim fica até fácil. Ah, me desculpe, não quis tirar seus méritos... Sei que amigos acontecem, colegas também, parentes existem, mas romance... Pra que? Pra arranjar problemas? Aborrecimentos? Sarna pra se coçar? Ficar preso a outra pessoa? Ficar dependente (de certa forma) e ter motivos para sentir falta, saudades? Não, você não, que não ama e não sente falta. Não.

Solidão? E quem se importa? Você não. Auto-suficiente, independente, você tem seu trabalho, sua faculdade, televisão, internet, e à noite, se/quando quiser, sai por aí pra conhecer alguém, beijar alguém, quem sabe transar com alguém, e em algumas horas talvez nem se lembre do nome de seja lá quem for, isso caso se lembre do que fez. Tão bem resolvido assim, provoca uma certa inveja em mim, sabe... Talvez seu mecanicismo seja resultado de certas turbulências emocionais de algum lugar do passado. Você provavelmente já amou e quis alguém (estou cogitando), mas não mais. Não hoje, e talvez jamais. Talvez se lembre de alguma história pessoal, de quando amou muito e deu com os burros n’água. Isso ao menos te valeu como experiência, um passo rumo à cura (?). E hoje, curado, ninguém mais te vitima por meio de seus próprios sentimentos. Você aprendeu o que ainda não aprendi.

Oras, e quem quer amar alguém, afinal? No momento em que ocorre é tudo muuuuuito bonito, mas quando acaba, a dor é tão absurda... Cansamos de ver isso. “Oh”, você diz, “o inferno são os outros”. Nada original, você pode fazer melhor que isso.

Você, na completude de sua solidão benigna, está muitíssimo bem assim e nem deseja mudar. Sua solidão é limpa, prática, honesta, higiênica, estilosa, poupa dinheiro e só traz vantagens. Mas como se sente naquelas situações em que se sabe amado, mas não ama em retorno? Eu gostaria de saber: como se sente quando alguém te ama tanto, mas você não ama nada de volta? Se alguém te ama, “ah, que legal, mas não é problema meu”, e apenas isso? Eu gostaria de saber, só por curiosidade.

Tudo passa? Tudo sempre passará? Eu até te acusaria de uma monstruosa insensibilidade, mas sei que a questão não é essa (e quem sou eu pra avaliar, não é mesmo?). A questão não é “insensibilidade”, e sim sua imensa sensibilidade restrita ao que diz respeito a si mesmo e a mais ninguém, e isso é um dom. Como você é louvável, e digo isso sem ironias.

Então, a você, prezadíssimo umbigo de seu próprio universo infinito particular, deixo minhas invejosas congratulações, pois você não se força a ser assim, este é seu natural. Que benção... Ah, de quanta dor você se poupa! Parabéns. Deve ser bom não amar alguém de verdade, mas não sei como é isso... Sem julgamentos, somos apenas diferentes. No fim das contas, nem espero uma resposta sua, de verdade, mas em todo caso, envio um selo dentro do envelope.

Cuide bem de si, ao menos, por favor.

Com carinho,
(assinatura do remetente)

P.S.: É verdade, eu não sei de nada. Por isso, peço humildemente: prove-me que estou errado.”

domingo, 30 de setembro de 2007

Roma



Seja lá quem começou com essa história de “amor”, inventou uma palavra chave em se tratando de controle e manipulação de pessoas. A chantagem emocional em muitos momentos se mostra mais eficaz do que o convencimento racional, e envolver o termo “amor” na primeira situação costuma se mostrar muito útil, negócio da China.

Imagine só: ao invés de virar para a outra pessoa e dizer “adoro sua companhia, sua conversa, seu toque, seu beijo e seu sexo”, você se resume a dizer “eu te amo”. Bem mais prático. Mas daí vem a situação em que você na verdade pensa “adoro seu toque, seu beijo, seu sexo, mas sua companhia me aborrece e não te quero comigo toda hora”, e continua dizendo “eu te amo”. Em outro momento, a idéia é “adoro sua companhia e quero você na minha vida para sempre, mas desejo beijar e fazer sexo com outras pessoas”, e ainda assim o sentimento é expresso no tradutor universal “eu te amo”.

Veja bem, não acho que, em nenhum dos casos acima, qualquer dessas pessoas esteja errada. Elas apenas realmente consideram que aquilo que sentem é “amor”, que é por esse nome que tais conjuntos de sentimentos em suas diversas composições devem ser chamados: amor. Desta forma, me parece que este é mesmo um conceito muito pessoal (ora, e não são todas as coisas afinal?), algo entendido de várias formas por cada um. Ótimo pra eles. Eu apenas tenho uma cogitação diferente. Estou achando que nada daquilo que exemplifiquei acima seja o que se diz de fato. Às vezes me parece, apenas, que o tal "amor" talvez não exista por si só.

Sei lá. Não que esta seja minha opinião, estou apenas levantando uma questão, mas é assim que tenho pensado neste preciso momento. Daqui a uma semana ou um ano posso chegar a novas especulações, lógico. Normal. Não é? Eu comecei a refletir sobre o assunto quando parei pra pensar nos vários “amores”, nas várias formas de amar (amantes, amigos, filhos, pais, cônjuges, Deus, a si mesmo etc.), suas diferentes intensidades e seus diferentes nomes. Foi justamente aí, ao pensar em seus diferentes nomes, que percebi que tais nomes existem para definir certos sentimentos preexistentes de forma mais clara e sincera do que o genérico e multifacetado “amor”. Parece que o “amor” é como o socialismo: o conceito é lindo, mas na prática obtém-se qualquer resultado, menos aquilo que se pretendia. É como se fosse um canivete suíço dos sentimentos, aplicado a várias situações que já possuem nomes específicos mas que, por algum motivo estranho, naquele momento chamam-se de "amor". Talvez seja um termo meramente empregado como definição de uma equação que reúne elementos já conhecidos por todos, como desejo, ciúme, admiração, interesse, medo da solidão, instinto de sobrevivência, instinto de preservação da espécie, dependência, e talvez até sadismo e masoquismo.

Nesses tempos em que desenvolvemos uma memória instantânea para assimilar tudo no ritmo em que acontece, acabamos perdendo contato com toda e qualquer profundidade com relação a nós mesmos e ao próximo, estendendo esta instantaneidade aos sentimentos, fazendo interpretações superficiais de absolutamente tudo. Acabamos tendo milhões de paixões fulgazes e volúveis. Muitas valem apenas uma noite, poucas passam de algumas semanas, e nada mais dura uma vida. Nada que signifique.

Recentemente, conversei com algumas pessoas (umas íntimas e outras estranhas) sobre os atuais discursos da psicologia (pois é) sobre a falência da monogamia e que assumir e aceitar relacionamentos poligâmicos é o que há, especialmente para amenizar (e muito) tanto a angústia trazida pelo ciúme e pela possessividade quanto a tristeza que assola com freqüência os sorumbáticos solitários. Cada um na sua, acho que topa quem quer, agüenta quem pode. Um amigo meu uma vez resumiu a idéia de forma bem direta e sucinta: “deixa o cara...”.

Se este sentimento de fato não existe e foi inventado apenas para que todos fiquem desejando ardentemente o inalcançável até o limite de suas forças, sei lá. Seja como for, não vou me esgotar em busca de respostas (esta fase já passou há tempos), mas pretendo não crer que “amor” seja apenas “roma” de trás pra frente...

E... Ah, deixa pra lá.

sábado, 22 de setembro de 2007

Drummond



Nada de mim hoje. Vamos de Carlos Drummond de Andrade.


REVERÊNCIA AO DESTINO

Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.

Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer.

Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus", principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.

Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.

Fácil é ditar regras.
Difícil é seguí-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.

Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.

Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

GH



Essa é uma historinha do meu passado, acho que eu tinha 21 anos.

Ainda era verão, o que no Rio é meio difícil de definir, e me lembro de ter pensado que amava alguém, mesmo sem planos para o futuro. Parecia que iria chover, mas só relampejou, depois trovejou, depois não choveu. Fiquei esperando a chuva que não veio e, enquanto isso, lembrei que talvez não estivesse com dinheiro suficiente para um lanche, um guaraná e o ônibus de volta para casa, mas tinha meu caderno em mãos, um bloco de notas e uma caneta. Vários textos avulsos escritos através de páginas tortas que se rasgavam aos poucos da espiral, coisas que, no momento, enquanto lia, não reconhecia nem lembrava de ter escrito. Algumas coisas eram realmente engraçadas (ora essa, parabéns para mim!), mas outras eu me perguntava “cara, sei lá onde eu estava com a cabeça”. Talvez se eu tivesse múltiplas personalidades em minha mente elas poderiam discutir, chegar a um consenso e me dar uma opinião, mas só tenho duas. Elas não concordam em nada e não se falam direito. Uma vez tentei ajeitar as coisas, e agora elas também não falam direito comigo. Pelo menos aquela voz chata que vivia me dando ordens parou.

De todos os males, o menor. “Pelo menos estou em paz”, pensei. Pensei errado. Senti alguém chegar falando sozinho, murmurando, depois se aproximar de mim falando. Elas sempre chegam falando, essas tais “pessoas”.

- Boa noite.
- Boa noite.
- O bloco G é aqui?
- Não sei.
- É aqui que fica o curso de informática?
- Não sei.
- Você estuda aqui?
- Não.
- Mas você sabe onde tem outros blocos por aqui?
- Acho que subindo pra lá.

Apontei e ela (a pessoa) olhou pra onde apontei. Então resolvi emitir uma opinião.

- Acho que o bloco G é o último.
- O último? Mas tinham me falado que o bloco G divide as paredes da papelaria com o bloco H. Tem um bloco H depois.
- Então eu não sei. Mas é verdade, H vem depois de G.
- Tá... obrigada, hein...

A frase foi educada, mas o tom foi de aborrecimento. Eu apenas tentei ajudar, ué.

Moral da história: não fale com pessoas. Restrinja-se a falar com objetos inanimados, eles são bons ouvintes. Menos as maçanetas, elas costumam ser muito temperamentais e cheias de manias.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Táxi



Quando saio pra curtir (entenda-se “beber mais que o recomendável”), deixo minha moto em casa e vou de ônibus, já sabendo que o retorno será de madrugada, de táxi. Gosto de andar de táxi batendo papo com o motorista. Alguns são caladões, alguns são maneiros, mas esse da história abaixo foi novidade: era maníaco-depressivo.
Aconteceu há um bom tempo, mas só me lembrei de escrever aqui hoje, talvez por falta de coisa melhor pra contar. Saí do Circo Voador, entrei no táxi e o motorista puxou a conversa:

- E aí, chefe? Muita mulher?
- Ah, sim. Como sempre. Ma hoje eu tava só querendo curtir o show, ouvir boa música, nada demais.
- Que isso, rapaz? Nenhuma que valesse a pena?
- Sei lá, eu apenas não tava interessado, sabe? Tô ainda ressabiado com o fim de um namoro...
- Pô, rapaz, eu sei como é. O nome da minha era Isabela, vou te contar como foi.

Sabe, neste momento eu pensei: “acho que esse cara não entendeu... EU sou o passageiro, EU vou pagar a corrida, então EU é que tenho que contar meus problemas pra ele, e ELE é quem tem que me ouvir, não o contrário!!!”. Mas quando percebi, já era tarde demais. Ele já contava sobre sua tragédia pessoal, e sobre Isabela. Foi algo assim:

- Rapaz, até uns oito meses atrás eu tinha tudo na vida: era sócio de uma concessionária, tinha minha Isabela (a mulher da minha vida), era feliz. Daí, um dia a Isabela chegou pra mim e disse que estava cansada de tudo, que não queria ter mais nada comigo, assim, do nada. Disse que iria pra casa da mãe, em Minas. Ela falou isso numa tarde, no dia seguinte já tinha ido. VAGABUNDA, PIRANHA!!! Fiquei arrasado, faltei ao trabalho a semana inteira, só chorava... Voltei à loja na segunda-feira seguinte, cheguei pra trabalhar e o que eu encontro? A loja fechada! Não tinha mais nenhum carro, os computadores não estavam nas mesas, a porta estava trancada com corrente e cadeado, meu sócio não estava lá. Liguei pra ele (o sócio), e ele me disse que estava rompendo a sociedade, fechando tudo, que iria se destinar a outros negócios, porque dali não tava saindo dinheiro. FILHO DA PUTA, VIADO!!! Em uma semana perdi a mulher da minha vida, meu trabalho, e depois meu sócio sumiu com o dinheiro me era devido...

Neste ponto, ele já contava a história com os olhos marejados, e olhando mais pra minha cara do que pra frente. Não preciso lembrá-los de que era ele quem estava dirigindo o táxi, certo? Isso me preocupou levemente. Fiquei com medo de que se o sócio tivesse fugido com a Isabela, ele arremessasse o táxi contra um muro e me levasse de carona num suicídio meio fora de hora, mas não foi o caso. Ele continuou:

- Olha aí!!! Abre o porta-luvas aí!!! Pode ver ó, só tô aqui trabalhando porque tô à base de tarja preta!!! (ele abriu o porta-luvas, pegou a caixa – com tarja preta – e a sacudiu com veemência, depois jogando-a de novo no porta-luvas, sem fechá-lo) O pior de tudo não foi ficar sem dinheiro, sem trabalho... foi perder a Isabela. Mas um dia eu vou atrás dela em Minas, ela não sabe que agora eu tô de táxi... daí eu me acerto com ela, ela vai ver. Esse meu sócio eu ainda encontro também, ele me paga!!! Desgraçado, filho de uma puta!!!

O táxi zigezagueava pela Linha Vermelha, mais do que se fosse eu mesmo indo a pé, bêbado como estava. Por fim, chegamos na esquina da minha rua, eu olhando pro porta-luvas aberto sobre meu colo, onde se via vitoriosa a caixinha (não vi o nome, o remédio ficou conhecido apenas como “tarja preta”). Com o alívio de quem descobre que o pára-quedas abriu direitinho, paguei ao motorista, desci do táxi, desejei boa sorte e disse “vai com Deus, amigo”, no que ele me retrucou, sorrindo:

- Não conto com Deus pra mais nada não, amigo. Eu só conto comigo, e mesmo assim só depois de tomar o meu remédio!!!

Ok, então. Eu não seria tão otimista quanto ele, mas tudo bem.

Isabela, se você estiver lendo este blog, ouça meu conselho: saia de Minas, faça uma plástica e troque de nome. E cuidado, muito cuidado com o próximo táxi que você pegar...

domingo, 2 de setembro de 2007

Sozinhos



Em algum momento, você já pensou:

“Essas coisas só acontecem comigo.”
“Onde foi que eu errei?”
“Por que eu?”
“Por que não eu?”


Eu sei. Às vezes penso isso. Todos pensam isso de vez em quando. Sabe qual é a conclusão? Que “essas coisas” não acontecem só contigo, nem só comigo. “Essas coisas” acontecem com todo mundo.

Sei que não consola saber que você não está sozinho nesse merderê, mas talvez console saber que você é, de fato, normal, e que isso não é nenhum tipo de maldição. Não sei quanto a você, mas pensar assim me ajuda a seguir em frente quando acho que tudo está dando errado comigo, pois a questão não é que as coisas estejam dando errado “comigo”, ou porque sou “eu” o cara em questão... Elas apenas estão dando errado no momento, e pronto. Depois talvez dê tudo certo, talvez não, sei lá, mas eu sei que isso acontece com todos os milhões de pessoas ao meu redor, e que (quase) ninguém está parando sua vida por causa de “coisas dando errado”. Quase ninguém. Eu acho.

Então até me sinto um alienígena, mas sei que não sou, ou não mais do que muitos por aí, e da próxima vez em que me sentir vítima, saberei que não sou vítima dos outros mais do que de mim mesmo. Não quero me boicotar mais, acho que ninguém deve se boicotar. As infelicidades já vêm a nós independente de nossa vontade, então não acho que seja justo fazermos isso a nós mesmos deliberadamente.

Por fim, se é que posso te dizer algo que valha, não caia nesse papo de que “o inferno são os outros” e ponto final, isso é se eximir demais da responsabilidade que você mesmo(a) tem sobre o que te faz sofrer. Sartre disse isso, e até onde sei, ele fez foi a vida da Simone de Beauvouir um inferno, mas porque ela deixou, porque ela quis. Nós permitimos ou não que os outros nos infernizem. Nosso inferno somos nós – se permitirmos.

Seja juntos, seja sozinhos.

domingo, 19 de agosto de 2007

Esfinges

Ok, começo a ter certeza de que vou ficar rouco pro resto da vida se continuar a passar as madrugadas dos fins de semana pelas ruas cheio de álcool nas idéias... Mas não deu pra evitar. Simplesmente tem sido assim. Fase? Pode ser (torneeeei-me um ééébrio, lá-lá-iá-lá-ri-lá-lá...). Bem, não vou falar do meu fim de semana inteiro, pois já escrevo demais, mas a sexta passada vale um relato.

Fui no Circo Voador mais uma vez (Deus abençoe a carteirinha de estudante). Rolou um pocket show de abertura do Rodrigo Santos, baixista do Barão Vermelho, que está lançando um disco solo com composições próprias. Mandou bem, pra mim soou melhor do que qualquer coisa que o Barão fez nos últimos 15 anos. É lógico que, no entanto, ele teve que tocar muitas músicas do Barão pra platéia, sabe como é...

Com uma produção bem caprichada, chegou o astro (?) da noite: Lobão. Devo admitir, o cara estava muitíssimo bem respaldado pela banda e um conjunto de violões de respeito. Acertou bastante no repertório, tocando seus sucessos (os de sempre), uma seqüência de Raul Seixas (as de sempre), e suas músicas mais recentes que tocam na Antena 1 e na JB FM. É, cara... Enquanto ele pegava um baseado ou outro com a platéia, eu mandava ver nas minhas cervejas. Cada um na sua, mas com alguma coisa em comum, afinal a maconha rola solta mesmo nos ares do Circo Voador, e se você está lá não importa muito sua vontade, você é um fumante passivo. Em certa altura do campeonato, descobre-se porque alguns acham que o Circo é voador (essa piada é velha).

Enquanto o Circo voava (hahaha, desculpe...), uma mulata com o cabelo do Sideshow Bob subiu no palco e pulou no colo do Lobão, que até o momento estava sentado em seu banquinho, tragando seus baseados e tocando seu violão conforme a idade lhe exige. Foi questão de segundos para que a moça tirasse a blusa e o sutiã, expondo e sacudindo um belo par de seios freneticamente. O pessoal do apoio de palco deixou a gente curtir aquele show dentro do show por um tempinho, até acharem que já tinha sido suficiente e retirarem a menina do palco. Pena. Alguém aí filmou aquilo?

O show prosseguiu, com direito a bis com “Corações Psicodélicos”, pretexto ideal para a subida de mais fãs e o retorno de nossa querida mulata exibida. Se tinha algo por trás daqueles fartos seios, com certeza era um coração psicodélico (você já esperava por esse trocadilho, né?). Destaque para o segurança que tentava retirar a moça do palco puxando-a por trás, sem muito sucesso, gerando um espetáculo literalmente circense de “homem-sorridente-agarrando-por-trás-mulata-saltitante-com-os-seios-de-fora-e-nem-era-carnaval”. Quem viu, riu.

Saímos de lá e fomos procurar um lugar pra encerrar a noite, comer alguma coisa, mas já passava das quatro da manhã, e todas as cozinhas estavam fechadas... Sei que não estávamos na mesma sintonia, mas eu queria beber um pouco mais, e não venha me criticar, quem quiser que tome leite, coca-cola ou suco de milho verde, eu mesmo pegaria mais leve se não fosse a má influência do meu chapa, o jacaré azul. Ele é maneiro, mas pega muito pesado. Vou mandar ele pro rehab junto com a Amy Winehouse.

Mas quer saber? Saldo: positivo. De tanto que andamos, passamos em frente a uma loja maçônica que tinha duas esfinges na entrada. Vai por mim, ver isso no breu das quatro da manhã é bizarro. Uma delas piscou pra mim e sorriu, na ida e na volta. Juro que não foi a bebida que me fez ver coisas. Pode perguntar pro jacaré azul, ele viu também.

domingo, 5 de agosto de 2007

Nós

Sexta-feira fui ao show de lançamento do DVD da PLOC 80’s 2, no Circo Voador. Antes de entrar, já sabendo que ia passar a madrugada pulando e sem comer mais nada, fui saborear um espaguete lá no Nova Capela. Enquanto eu jantava eu tomava umas caipirinhas, e quero que você me prove que aquelas caipirinhas não levavam milho. Sério, parecia que eu estava bebendo suco de pamonha com limão, algo muito bizarro. Foram as caipirinhas com a receita mais estranha que já tomei: limão, cachaça, açúcar e curau.

Já que na TV passava um jogo de futebol que não me interessava nem um pouco, fiquei observando o ambiente ao meu redor e flagrei a cena: acredite em mim, esses senhores estavam sentados a duas mesas de distância um do outro, mas estavam conversando! O senhor à sua esquerda já estava lá, bebendo sozinho. O outro, o grisalho, à direita, chegou depois sozinho também e pediu uma bebida. O senhor da esquerda começou a falar algo, o da direita respondeu, eu sinceramente não entendia uma palavra sequer mas sabia que estava rolando um diálogo simpático, e mesmo assim ninguém se levantou de onde estava para sentar-se com o outro, e assim foi.

O senhor grisalho levantou-se, despediu-se do outro e foi embora. Imediatamente, o senhor da esquerda que voltou ao seu estado inicial de solidão, perdeu o sorriso que mantinha durante o diálogo, voltou a ter a expressão séria e imóvel de antes, deu um gole em sua bebida, e assim foi. Me diga você, então, o que é solidão?

Depois dali fui ao Circo Voador, mas por algum motivo falar do show parece já não caber aqui, agora. A minha caminhada solitária pela Lapa, as pessoas que vi, os trechos de frases que ouvi, os batuques, os ritmos, os gritos, os silêncios, as luzes e as escuridões, públicas e particulares... Tantas pessoas andando sem parar, outras em pé por horas, outras dormindo pelas ruas. Tantos shows e tanta desgraça, uma sensação de estar engolido pelo caos, por um pedaço de inferno na terra que, apesar disso, é tão atraente.

O espaguete ao sugo que comi estava ótimo. Das 5 caipirinhas que tomei (e que enriqueceram meus pensamentos naquela noite), as duas primeiras provavelmente tinham milho na receita, mas as outras 3 tinham algo difícil de dizer... Acho que elas tinham Lapa, tinham som, tinham pessoas fazendo mil coisas ou nada em especial, e tinham, especialmente, a mim naquela noite.

Eu estava lá, naquelas caipirinhas, no Circo Voador, na Lapa, no Rio de Janeiro, no Planeta, no universo, mas o mais importante, eu percebi que eu estava ali em mim. E foda-se se eu estiver sendo piegas, foi o que senti e é o que quero escrever aqui, pois foi exatamente assim.

E depois de muito cansado, fui para casa dormir, e dormi bem.

domingo, 29 de julho de 2007

Nada

Oi.
Estou aqui só por estar, pois na verdade estou absolutamente sem inspiração pra escrever seja lá o que for, mas como eu queria escrever algo (até para cumprir com minha meta de atualizações semanais neste blog), cá estou. Então é isso, você está presenciando, neste exato momento, eu sem saber sobre o que falar, falando sobre absolutamente sei-lá-o-que.

Noutro dia desses sem ser hoje outro, eu estava pensando (sem falar em voz alta) o que se passava pela minha cabeça. Foi engraçado, pois foi como se fosse assim mesmo, do jeito que é, sem ser diferente nem de outra forma ou de outro modo. Apenas assim, como é. E assim era e assim foi bom, de uma forma que não é nem será mais. Concreto e abstrato, concreto e asfalto, pois concreto não é asfalto nem cimento, muito menos isso, nem também borracha. Pois faça de conta que seja só pra ver como seria se fosse, pra você ver se não é melhor assim do jeito que está e é, não é? Não, não é, pois o “pois não” significa “sim” e o “pois sim” significa “não”. E embora pareça, isso aqui não é letra de música do Engenheiros do Havaí, nem da Rita Lee, nem poema pra ser declamado no CEP 20000.

Se não tem ninguém, tem alguém, pois se não tivesse alguém, aí sim teria ninguém. Por outro lado, se tivesse ninguém, não teria quem se ter, e isso me remete ao começo dos tempos: ninguém é a ausência de alguém, e alguém existe, assim como nada é a ausência de algo, mas o “algo” tem que existir para que se faça ausente. Existir é verbo, mas não de ação, e acho que nunca descobriremos o mistério de existir, pois sempre que voltarmos mais atrás para descobrir de onde veio a existência, teremos que parar em algo que apenas imaginamos, pois se o começo de tudo foi uma explosão quando não havia nada, o que diabos explodiu?

Até onde sei (e a partir deste ponto o texto parece que vai ganhar algum sentido), explosões não surgem do nada, e é nisso que querem que eu acredite? Que o “nada” explodiu e deu origem ao universo? Por acaso você já andou por aí e surgiu uma explosãozinha na sua cara? Bom, eu nem me espantaria com isso agora, pois no ar há gases, e gases que explodem. Gases que são parte da existência, assim como tudo, e que surgiram da mesma origem do “tudo”. Então se os gases só surgiram junto com tudo no universo que se criou após a tal grande explosão, O QUE DIABOS EXPLODIU?!?!?!

Por isso às vezes é melhor apenas acreditar em Deus mesmo, acreditar que ele criou o universo e pronto. Mas daí eu penso: o que será que Deus fazia antes de criar o universo? Isso devia ser um tédio terrível!!! Ou então vou acreditar que ele criou o universo logo assim que se deu conta de que ele mesmo (Deus) existia e de que tudo estava um saco e então ele pensou, tipo, “ô porra, eu sou DEUS?!”, e daí no mesmo segundo em que Deus se dá conta de que ele é Deus, cria-se o universo. Daí fica tudo muuuuuuuito mais fácil de se explicar, pensar que Deus sempre existiu e tinha sérios problemas de gases (vindos de comer “nada”, pois se não havia a “existência”, não havia o que se comer), e então um dia Deus tomba pro lado devagarzinho, assim somo o vovô no sofá da sala domingo à tarde, franze a testa, faz aquela cara que denuncia suas intenções intestinais, uma leve força e PRRRRRRFFFFFF!!!!
Criou-se o universo.

Uma boa explicação para “de onde viemos”, não?
Eu tinha avisado lá no começo que hoje eu estava sem assunto...

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Bogari

Ele ainda pergunta, olhando-a já na porta, mesmo já sem fé.

- Você vai mesmo?
- Talvez um dia a gente...
- Você vai mesmo?
(Silêncio)

Ele insiste, dando chances a quem não está pedindo chance alguma.

- Tem certeza?
- ...
- RESPONDE!!! ... por favor...
- Tchau.

Ela vai saindo com uma pequena mala na mão, só leva o que é dela. Talvez ele nunca tenha sentido um gosto tão amargo. Nem há nada em sua boca... ou na verdade há. Há algo em sua boca. Há um “adeus” preso, esticado pela garganta, uma palavra que existe, que pensou, mas que não permite que saia. Parou ali, sobre a língua. O estômago então começa a doer, tão intensamente quanto a sensação de vazio.

Permanece ali, parado, sentado na beira da cama. Fica assim por uns dez minutos e alguns segundos que, realmente, não são importantes para se contar agora. Olha fixamente para o rodapé, mas a mente vaga entre o nada e o confuso. É quando a mão direita se eleva e afaga a barba que emoldura o rosto, um rosto que é mais jovem do que aparenta. A mão passa lentamente uma vez, outra, se detém no queixo e então o traz de volta à realidade que, no momento, não é muito agradável. A foto ao lado da cama mostra o rosto daquela que se foi, aquela que ele pensou que ficaria, ou que ao menos ele queria que ficasse. A foto nem é tão boa. O cabelo desgrenhado cobriu um dos olhos, e o outro parece encará-lo, parece culpá-lo. Sabe qual é o problema? Memórias são involuntárias.

O céu está acinzentado, vai chover. Olhando pela janela, ele a vê, lá na rua. Ela está indo embora mesmo. Ela ainda chega a olhar pra cima, para a janela, quando um primeiro pingo de chuva atinge sua testa e escorre para o olho. Sorte que ela não está vertendo sequer uma lágrima, ou não saberia distinguir o choro da chuva. Vira o rosto e volta a encarar o asfalto, a seguir seu caminho até a esquina, onde pretende pegar um táxi. Não demora e chega um.
- Pra onde, senhora?
- Vai seguindo que daqui a pouco eu decido.
- ?

O taxista estranha, no entanto não há o que discutir, desde que ela pague a corrida. Ela ainda não sabe se vai direto para a casa dos pais ou se pára antes, na Igreja de São José. Foi lá onde se conheceram, há dois anos, no casamento de sua irmã. Ele era convidado do noivo, amigos de trabalho. Foram apresentados pelos recém-casados, e se essa história de “química” fosse real teriam entrado em combustão espontânea. Quando volta ao presente, ela percebe que a igreja já passou, nem viu. “Tudo bem”, pensa. Segue para a casa dos pais. Decide que amanhã, de manhã, lá pelas nove, ela vai passar na São José, ficar um pouco, meditar um pouco, só pra lembrar.

Ele? Ao sentir a chuva em sua nuca, resolve abrir a janela toda para que, quem sabe assim, o vento gelado entre livre e renove o ar daquele apartamento minúsculo no oitavo andar. Sua cabeça está a mil, a vontade de gritar, urrar e esmurrar é angustiante!!! Resolve então pôr uma música pra tocar bem alto, aperta o botão sem mesmo ver. A música é... é Lover, You Should’ve Come Over, Jeff Buckley. Maldição. Seu primeiro impulso é tirar, mas algo o detém, as lembranças de certos momentos, dos dois juntos, dela aninhada em seus braços, tantas coisas, tantas...
A saudade coça o céu da boca.
Talvez o maior problema seja esse perfume que ela usava. Usa. O cheiro insiste em ficar em tudo, mesmo onde não está. O cheiro está em seu nariz. O cheiro está nele mesmo, dentro e fora. O cheiro dela. A saudade tem cheiro, som, nome e gosto. O telefone de casa toca. Ele hesita, mas atende.
- Alô?
- Querido? É mamãe! Tudo bem? Você não vem mais aqui, não liga, eu fico preocupada!
- Tô bem, mãe. Tô ótimo.
- Ah, que bom. Assim, sim. Agora chama essa sua mulher aí que eu quero falar com ela, precisamos marcar de...
- Olha mãe, agora não dá. Ela... Ela tá... Ela saiu.
- Saiu? Ela foi no circo?
- Circo?
- É, o Orlando Orfei ta lá na Praça XI. Ela foi ver “a beleza das águas dançantes”?
- Pô mãe, sei lá. Ela só foi, só isso.
- Mas por que você não foi?
- Eu não gosto de palhaços. Não gosto das sacanagens com os animais também.
- Hmmmmmm...
- “Hmmm” o quê, mãe?!
- Nada. Só estranhei. Eu hein, nervoso...
- Olha, mãe, eu tenho que desligar agora. Tô cheio de coisas pra fazer.
- Tá bom, querido. Não some, tá? Cuidado com esse tempo doido.
- Tá. Tchau.

Ele se pergunta se todas as mães são chatas ou se isso é um complô. Será que todo relacionamento que envolva um amor muito forte acaba enjoando com o tempo? Fica desgastado? Acaba? Muda?
De repente, quando os sentimentos se confundem, é preciso se afastar de tudo e de todos. Ele imagina se algo dentro de si mesmo basta, sozinho, para fazê-lo feliz por ser sua melhor companhia naquele instante. “Quem precisa dela?”, pensa. De repente, não era mesmo para que eles ficassem juntos. Quem sabe desse tal destino? Quem sabe se... se... se... se...
Após desligar o telefone, ele volta à janela para tomar um pouco de chuva gelada na cara, no peito, para acordar, clarear a mente, pensar, pensar. Finalmente uma decisão surge, uma clara decisão. Uma memória boa, de um tempo em que tudo prometia ser mais que perfeito. Lembra-se de um lugar especial, um lugar que ele não visita há muito tempo, mas que sempre está à sua disposição, aguardando-o para momentos justamente como este.
Por hoje, cinco da tarde, a casa é a concha na qual ele precisa se guardar um pouco. Mas amanhã, logo de manhã, lá pelas nove, ele vai passar numa igreja que tem ali mesmo no bairro, a São José. Ficar um pouco, meditar um pouco...

Só pra lembrar.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Certeza

- Sabe cara, hoje eu tava pensando...
- Hmm.
- Hoje eu tava pensando.
- Sei. No quê?
- Coisas.
- Coisas?
- É.
- Não faz isso muito não. Não faz bem. Sério, cara.
- É que sei lá...
- A gente fica doido.
- Não, tá, mas é que... Veja bem, não é tão difícil de entender, mas na prática...
- Tô te ouvindo.
- Assim... Como saber se alguém gosta mesmo da gente, hein? Como saber se alguém te ama? Como? Cê sabe?
- Perguntando.
- Não... Não, não assim. Tô falando saber de verdade, ter certeza. As pessoas costumam dizer apenas o que é mais cômodo, fácil, apropriado pro momento, sei lá. Nem sempre é o que pensam mesmo, ou o que sentem.
- Quase nunca é.
- É. Nunca.
- É.
- Difícil isso. Quer dizer que a gente vai sempre ficar na dúvida.
- É.
- Mas não dá! Não me conformo com isso. Tipo, se eu chegar pra minha mulher e disser que a amo, mesmo, é porque a amo.
- Bem, isso é o que você diz.
- Mas é a verdade!
- Ela pode achar que não.
- Por que não?
- Ué, como ela vai ter certeza? Você mesmo acabou de dizer que não dá pra ter certeza. Ela não teria certeza. Você não teria certeza se ela dissesse. Hoje em dia qualquer um sai dizendo “eu te amo” pra qualquer um.
- Não eu!!!
- Ah, legal. Bonito isso, cara. Mas deu no mesmo.
- Mas olha, eu sei de tudo isso que você falou, mas... Deve haver algum jeito. Uma prova de amor? A-ha!!! Exigir uma prova de amor!!! Que tal?
- Tipo?
- Tipo pedir pra ela algo especial, um sacrifício, algo assim. Pedir que ela corte uma orelha fora por você! Como Van Gogh! Uma orelhinha só, nem faria tanta falta.
- Pra mim faria.
- Sei, mas o que você acha?
- Acho isso uma idéia besta. Acho que isso só provaria que você é um doente. E que não gosta dela de verdade.
- ... entendi...
- Olha só, você tem religião?
- Sim.
- Pois é. De repente, ser amado por alguém é tipo isso. É passar a vida acreditando em uma coisa sobre a qual você talvez só vá ter certeza quando chegar ao fim.
- Ao fim de que?
- De tudo.
- Você acha?
- Ahãn.
- Pô, mas aí... pô... chato isso, né?
- Sempre é. Mas nem faz muita diferença.
- Não?
- Não.
- Por que?
- Você não tem como ter certeza de que ela te ame ou se é só da boca pra fora, certo? E ela não tem certeza se você a ama assim também. Então te pergunto: você já conseguiu evitar amar alguém só porque esse alguém não te amava?
- Não.
- Então, meu caro, nem tenho mais nada pra te falar. Acredite no que quiser, relaxe, curta o que você tem se te faz bem e siga em frente...
- Tá certo...
- Falei que não valia a pena ficar pensando nisso.
- É. Mas tá beleza. É isso aí. Você saca das coisas, cara. Sério, você é mestre.
- Que nada. Eu só tô tentando. Que nem todo mundo.
- Então.
- Então.
...

- Escuta, o Fluminense ganhou ontem?
- Fluminense? Não, ganhou não. Perdeu, dois a zero.
- Sei. Me passa esse paliteiro aí.
- Claro.
- Valeu.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

86'd

Hoje não quero escrever nada meu. Hoje quero passar um poema de Charles Bukowski, um dos meus escritores preferidos. Sempre bêbado e fã de corridas de cavalos, começou sua carreira tardiamente e nunca foi famoso por sua doçura...
Eu o prefiro por seus contos e romances do que por seus poemas, mas este em especial, chamado 86’d, sinto imensa necessidade, no momento, de expor aqui. Abaixo segue ele, na tradução para o português feita no livro Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski por Jorge Wanderley.

“o que mais compromete o trabalho
é
tentar fazê-lo
sob uma bandeira
santificada.
a semelhança das intenções
com as dos outros
distingue o idiota
do descobridor

você pode aprender isso em
qualquer
sinuca de esquina, jóquei, bar,
universidade ou
cadeia.

as pessoas correm da chuva mas
sentam
em banheiras cheias
d’água.

é bem desanimador saber que
milhões de pessoas estão preocupadas com
a bomba de hidrogênio
embora
já estejam
mortas.

mesmo assim continuam querendo
mulheres
dinheiro
fazer sentido.

e finalmente o Grande Bartender se inclina pra você
branco e puro e forte e místico
e diz que pra você já
basta
logo quando você acha
que está justamente
começando.”

sábado, 7 de julho de 2007

Girafas

- Paiê!
- Ãhn.
- Paiê! Quê que é aquilo?
- É uma girafa.
- Por que?
- Como assim "por que"?
- Por que aquilo é uma girafa?
- Bom... sei lá por que. Alguém decidiu que era girafa e pronto.
- Quem?
- Hummm... Deus.
- Deus trabalha no zoológico, pai?
- Não.
- Então ele é o dono?
- Algo por aí.
- Ele é o sócio?
- Não! Olha só, Deus não é o dono do zoológico, nem sócio, mas foi ele quem fez a girafa, você e eu.
- Então por que você e eu não somos girafas?
- E pra que você queria ser uma girafa, garoto? Dê-se por satisfeito de não ser um macaco!
- E por que eu não sou um macaco?
- Porque você evoluiu, só isso!!!
- O que é "evoluiu"?
- Ai, que saco... Quer dizer que você não tem rabo, anda em pé, sabe falar e come alimentos cozidos!!! E mais, o polegar do seu pé virou o dedão, mas na mão continuou sendo polegar!!! Por isso você consegue ficar ereto, correr pra fazer as coisas que tem que fazer, usar ferramentas, usar computador, usar celular, estudar coisas que outros evoluídos inventaram, arranjar um emprego que pague bem, ter dinheiro pra comprar coisas, arranjar uma mulher, construir uma família, sustentar essa família e assistir televisão!!! ENTENDEU AGORA?!?!
- Mas pai...
- O QUÊ É?!?!?!
- Isso é bom?
- ...

O pai olha para o filho por um tempo, agora já com ternura no lugar da impaciência. Pega o menino pela mão. Calmamente, aproximam-se da grade das girafas. Ele pensa um pouco, lábios cerrados. Eles observam os animais comerem as folhas das árvores, placidamente. O menino olha para o alto, fitando o rosto do pai, esperando, pisca os olhos duas vezes, com expressividade, como só uma criança faz. Ainda olhando para as girafas, o homem franze a testa em dúvida, aproxima seu filho puxando-o levemente pelo ombrinho com sua mão imensa de adulto.

- É, meu filho... Por que Deus não nos fez girafas?

07/07/07

Olá e obrigado por visitar este blog. Fiquei sem computador por um mês, mas agora está tudo voltando ao normal, inclusive as atualizações daqui, que sempre pretendi manter semanais.

Espero que seja simbólico de um jeito bem positivo, mas justamente hoje é o dia 7, do mês 7, do ano 7, e ainda por cima caiu num sábado, que é o sétimo dia da semana. Alguém sabe me dizer se isso é bom? Black Francis já dizia que man is 5, devil is 6, God is 7, mas até aí morreu Neves. Será que isso significa que hoje é o dia mais sagrado de todos? Pena que eu não escrevi isso às 7 da manhã...

Bom, seja como for, este post é apenas para marcar o retorno após tanto tempo afastado deste blog. Daqui a alguns minutos publicarei algo novo, algo que se possa ler de verdade.

Feliz sábado 07/07/07 pra vocês!!!

P.S.: Alguém aí sabe quem foi esse tal Neves que morreu e até hoje é citado como sinônimo de algo que não fez diferença alguma pra ninguém?

sexta-feira, 8 de junho de 2007

51

Agora eu quero palmas, por favor. Aplausos!!! Mais forte, APLAUSOS!!! Vamos comemorar, pois esta é a primeira postagem que faço bêbado. Ou quase. Estou tonto o suficiente para sentir o mundo girar de montão ao fechar meus olhos, mas ainda me acho consciente o bastante para escrever aqui, me policiando quanto aos erros ortográficos. Acredito que, mais trade, ao reler sóbrio o que escrevi, vou achar alguns erros ortogáficos e me sentir um idiota. Mas agora, neste exato momento, estou meio alto, então que se dane!!! Putz, quando eu for deitar vou certamente sentir uma ânsia de vômito... Legal, estou me lembrando de quando eu tinha 17!!!
Sim, eu gosto de usar 3 exclamações seguidas!!! É tipo uma marca registrada!!!
É madrugada de sexta pra sábado. Acreditem ou não, a última vez que olhei as horas era 3:33 da madrugada. Bacana. Quem me cionhece bem sabe que isso tem significado pra mim, horas com números iguais. É um significado besta, mas é um significado. Eu tenho minha simbologia própria, minhas lendas pessoais, meu folclore, posso? Obrigado.
Não, não sou alcoolotra, mas descobri que acrescentar Pirassununga 51 aos refrifgerantes e sucos faz as coisas mudarem um pouco de figura. Fico mais leve e comunicativo. É o caso neste momento.
Eu estava conectado ao msn, mas nada de alguém pra conversar, então vim aqui pra conversar sozinho, que nem maluco em praça pública, só pra ver quem é que aparece pra dar uma resposta em forma de comentários futuramente.
O dia dos namorados está chegando, dia 12. Grandes merdas!!! Meeeeeeeerdas!!! Só passei um dia dos namorados acompanhadio na minhavida nteira e não lembro de ter sido algo superespecial. Dia 13, logo depois, é dia de Santo Antônio. Parabéns pra ele, santo bacana esse. Meu nome leva "Antônio" (que no meu caso é sem acento, sei lá por que) por causa de promessa que minha mãe fez a ele. Também não sei qual a promessa. Já meu primeiro nome vem de uma aposta ridícula que meum pai fez com o melhor amigo. Querem saber como foi? Foi assim:
Meu pai apostou com o melhor amigo uma corrida curta, até um poste na esquina, eu acho, e disse: "quem perder, vai botar o nome do outro no primeiro filho". POis é, o amigo do meu pai se chamava Marcos, e meu pai perdeu a corrida. legal, agora vocês sabem porque me chamo Marcos Antonio. Como o amigo do meu pai era muito gente fina (assim, que nem eu), quando ele teve um filho também botou o nome dele em homenagem ao meu pai. Bacana da parte dele. Fico até feliz de ter recebido o nome de um cara supimpa assim.
Ai ai ai, vejamos o que mais o álcool me faz dizer. Ah, sim!!! IGNOREM ESSE TAL "DIA DOS NAMORADOS"!!! Não deve haver um dia só pra isso. Dia dos namorados é todo dia: respeitem seu parceiro(a), seja noivo(a), namorado(a), marido ou esposa. Dêem a ele(a) respeito e conffiança a cada hora do dia!!! Prestem atenção ao que vocês têm e não abram mão disso a troco de qualquer coisa, pois nunca valerá a pena. Quando se tem, é fácil fazer pouco do valor de algo, mas não esperem perder pra lamentar a saudade do que tiinham. Dêem valor à pessoa ao lado a cada segundo, a cada respiração, a todo momento!!! Isso sim é um verdadeiro dia dos namorados, não esse monte de propaganda que só serve pra deixar os solitários um pouquinho mais tristes...
Mas essa história toda eu já disse antes. Então, vou aprveitar o autocontrole que me resta pra digitar aqui só um trechinho a mais do livro Mulheres Que Corremn Com Os Lobos:
"Podemos deter todo o conhecimento do universo, e ele se reduz a um ponto: praticá-lo."
Entendeu?

terça-feira, 29 de maio de 2007

Coincidência

Você sabia que, exatamente no mesmo momento em que você dá a descarga em sua privada, milhares (ou talvez milhões) de outras pessoas ao redor do planeta estão fazendo a mesma coisa? Já parou pra pensar em quantas pessoas estão lendo ou pronunciando a palavra “palavra” junto com você, bem agora, onde quer que elas estejam? Talvez num jornal, num livro, numa conversa informal, numa palestra ou mesmo aqui, neste blog. No Japão, na Turquia, no Tocantins, no Amapá, na Ilha do Governador, no Bairro de Fátima ou em Londres. Nunca saberemos, muitos não acreditarão, mas tamanha coincidência é mais que possível. Uns de nós já passamos por esses sincronismos, com maior ou menor freqüência. Coincidência ou acaso? Destino?

Então me diga: o que seria esse tal amor? Dentre os bilhões de seres humanos que habitam o globo, uma pessoa em especial te escolheu e foi escolhida por você. Tal “escolha” aconteceu ou por vocês terem crescido na mesma rua, ou por estudarem juntos, por trabalharem no mesmo local, ou apenas por morarem no mesmo estado e um dia terem se esbarrado por aí, num clube, numa festa, numa fila que não andava em um banco. E o que teria sido esse encontro? Vidas seguindo caminhos predestinados? Ou será apenas porque é mais fácil conhecer “aquele alguém” numa das situações acima do que ao passar uma semana de férias na Ásia? E aí, e se o verdadeiro grande amor da sua vida for uma camponesa que está colhendo arroz no Vietnã, ao invés da sua esposa, a quem você conheceu na faculdade há seis anos? E se esse garotão por quem você fica derretida for apenas cisma sua, pois talvez o homem que reúne todos os atributos para te fazer feliz seja um inglês que está agora ouvindo The Smiths em um quarto frio em Manchester?

Teríamos então que rodar por todos os continentes e tentar conhecer todas as pessoas do mundo para encontrar o amor verdadeiro? Isso é fácil de fazer, certo? E isso seria o certo? Não creio que seja bem assim.

Não estou falando em almas gêmeas ou vidas escritas nas estrelas desde antes do nascimento (embora talvez até seja esse o caso, quem sabe?), mas de um ponto de vista menos empolgado, basta analisar o que acontece ao redor e o que acontece dentro de si mesmo. As coisas são como são e acontecem como acontecem e pronto! Acho que está além da compreensão. Pode ser apenas um fenômeno natural, afinal de contas, salmões nadam contra a correnteza de um rio, nem todos conseguem chegar à nascente, e apenas alguns terão a competência (ou sorte) de encontrar a foz e poder se reproduzir. Nós também? Você aceitaria esse destino tranqüilamente? Ora, faça um movimento humano ao menos de agora em diante! Nós não somos salmões! Se você já se achou com relação a este assunto, beleza. No entanto, se aquele "alguém" que você queria não acha que você é aquele "alguém" que ele(a) queria, vá em busca de quem ache que você é esse "alguém", pois pode ser que esse "alguém" também esteja por aí em busca de você! Você vai achar quem concorde com seu achado. É melhor do que gastar tempo precioso de sua vida, que nunca se sabe quando acabará, remoendo tristezas e rancor, seja de quem for, seja de si mesmo (no fim das contas, acaba sendo).

Se tem uma coisa que estar só proporciona é bastante tempo para refletir-se sobre a solidão. Ou apenas pensar besteiras meio infundadas, como fiz agora. Bom, ao menos fiz isso sozinho.

sábado, 19 de maio de 2007

Henfil

Recebi um texto legal, escrito pelo Henfil. Ele já morreu há um tempo. Não que isso torne o texto mais relevante, só fico pensando se o Henfil, de fato, aplicou em sua vida o que revelou já ter na consciência com este texto. Se aplicou, creio que ele foi feliz. Espero que eu saiba agir assim, pois acho que entendi o que ele quis dizer. Então, vejam se gostam do texto que ele intitulou Vida.

"Por muito tempo, pensei que a minha vida fosse se tornar uma vida de verdade. Mas sempre havia um obstáculo no caminho, algo a ser ultrapassado antes de começar a viver, um trabalho não terminado, uma conta a ser paga. Aí sim, a vida de verdade começaria...
Por fim, cheguei à conclusão de que esses obstáculos eram a minha vida de verdade.
Essa perspectiva tem me ajudado a ver que não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho!
Assim, aproveite todos os momentos que você tem. E aproveite-os mais, se você tem alguém especial para compartilhar; especial o suficiente para passar seu tempo.
Lembre-se de que o tempo não espera nada e ninguém. Portanto, pare de esperar
até que você termine a faculdade;
até que você volte para a faculdade;
até que você perca 5 quilos;
até que você ganhe 5 quilos;
até que você tenha tido filhos;
até que seus filhos tenham saído de casa;
até que você se case;
até que você se separe;
até sexta à noite;
até segunda de manhã;
até que você esteja de carro ou casa novos;
até que seu carro ou sua casa tenham sido pagos;
até o próximo verão, outono, inverno;
até que você esteja aposentado;
até que a sua música toque;
até que você tenha terminado seu drink;
até que você esteja sóbrio de novo;
até que você morra;
e decida que não há hora melhor para ser feliz do que AGORA MESMO...”

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Aprendendo

É preciso aprender. É preciso, pelo menos, tentar aprender, sempre mais e mais, nunca desistir. Não se sabe o resultado, não se sabe se dará certo, mas é preciso tentar. Neste exato momento, comunico aos meus leitores que estou tentando entender as mulheres. Vocês agora têm certeza de que estou louco, não é?

Mas não estou me referindo a apenas "entender" como meramente "fazer sentido" diante do meu entendimento, e sim "entender" do ponto de vista do aprendizado verdadeiro, didático, histórico, psicológico, enfim, todo e qualquer elemento que componha a natureza feminina, mesmo em um nível que as próprias mulheres talvez desconheçam. E não, não quero ser arrogante jamais. Venho humildemente me embrenhar neste terreno em busca de algum entendimento sincero, em busca do conhecimento que não possuo ainda.

Missão: impossível? Talvez não. Estou dando apenas o primeiro passo: estou lendo um livro bacana de uma psicóloga junguiana, Clarissa Pinkola Estés, chamado Mulheres Que Correm Com Os Lobos - Mitos e Histórias do Arquétipo da Mulher Selvagem. Através de lendas e contos de fadas das mais diversas culturas (histórias sempre bem interessantes), são feitas análises e interpretações sobre o que há de mais profundo e "real" na mulher, no espírito selvagem feminino. Nunca achei que algumas coisas começassem a fazer tanto sentido, pouco a pouco, e pretendo aprender cada vez mais, pois o assunto (mulher) me fascina. O livro é voltado para leitoras, mulheres, mas sinceramente, acho que todos os homens poderiam se dar uma chance e lê-lo também. Servirei de cobaia. Se eu sair vivo e não tão louco desta empreitada, deixarei meu exemplar à disposição para empréstimo aos amigos. Já vai até com passagens sublinhadas.

Então, como estou sem criatividade hoje, gostaria só de extrair um trechinho bacana pra vocês. Ele nem é tão representativo da essência da obra em si, mas é igualmente interessante. Juro que, de acordo com qualquer evolução que eu venha a ter neste aprendizado, compartilharei minhas descobertas com vocês. Se o resultado será enlouquecermos todos de uma vez, tudo bem. O aprendizado sempre vale todo o esforço feito para atingí-lo. Segue abaixo a passagem à qual me referi. O que será que vocês acharão do que ela diz?

"Amar significa ficar com. Significa emergir de um mundo de fantasia para um mundo em que o amor duradouro é possível, cara a cara, ossos a ossos, um amor de devoção. Amar significa ficar quando cada célula nos manda fugir."

domingo, 6 de maio de 2007

Trecho

Mais um pouco de Fernando Pessoa/Alberto Caeiro. Desta vez, apenas um trecho, mas um belo trecho.

"Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
(...)"

Epifania

Você que está aqui, agora, lendo este blog, me confirme uma coisa: um dia te ensinaram que 3 vezes 9 é igual a 27. Hoje em dia, se te perguntam quanto é 3 vezes 9, você diz 27. Um dia você aprendeu, também, que água fervente queima, e até hoje você tem todo o cuidado do mundo em aplicar este conhecimento, evitando derramar água fervente sobre qualquer parte do seu corpo. Eu sei que nem tudo que já te ensinaram na vida era uma verdade absoluta, mas algumas coisas são, e não estou sendo leviano nesta afirmação.

Então, vamos manter isso em mente. Há um maldito velho ditado que diz que "A gente só dá valor depois que perde", e você provavelmente já ouviu este ditado. Inúmeras pessoas o conhecem, mas me diga: quantas pessoas você conhece que aplicam este conhecimento de fato em suas vidas? E você, aplica? E eu, será que aplico?

Da minha parte, posso dizer que tento. Por isso venho aqui implorar a todos os visitantes que ao menos TENTEM aplicar isto em suas vidas!!! Preste atenção, pois há sensações momentâneas tão angustiantes que são capazes de nos levar a esquecer os sentimentos maiores, melhores e verdadeiros, assim como visto em "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança". Já assistiu a esse filme? Assista e pense sobre.

Em resumo, não espere para perceber quanto valor há em algo, ou em alguém, apenas depois que você já abriu mão!!! Tudo na vida é tentativa e erro, mas algumas coisas são recuperáveis, outras não!!! Cuide muito bem do seu amor, pois as coisas boas acontecem SIM, mas são raras, MUITO RARAS!!! Oras, não estou aqui contando nenhuma novidade. Quase todos já passaram por isso em suas vidas. Estou apenas rogando para que possamos passar da parte do aprendizado para a parte prática.

Pare de dar mais ouvido às suas dúvidas do que ao seu próprio coração. Dúvidas nós sempre teremos muitas, mas coração só temos um. Ele é forte, se quebra e se reconstrói infinitas vezes, mas é apenas um. Pode contar aí.

Você nunca poderá ter certeza sobre aquilo que é externo a si, mas pode se munir de algumas certezas internas, próprias. Dê valor ao que você tem, perceba o quanto te faz bem enquanto está contigo, pois tudo pode mudar em questão de dias. Em questão de horas. De repente. E aí, só nos resta refletir, aprender, e rezar para que nunca seja tarde demais.

Por isso, não fique esperando por sua epifania. Se você for ler os contos presentes em “Dublinenses”, de James Joyce, vai notar que, em geral, isso não é nada divertido.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Felicidade

Felicidade: o que é, quem pegou e onde está que eu também quero?

Como ser feliz? Ninguém me perguntou, mas eu também queria saber. Não tentei descobrir em livros, não realizei pesquisas mirabolantes e nem gastei anos da minha vida com meditações e divagações sobre este assunto. Eu queria descobrir como ser feliz naturalmente, e isso me causava imensa tristeza. Ou seja, algo estava saindo errado...

Apostei na Loteria Federal, participei de promoções (juntei tantas caixas de creme dental quanto de caldo de frango!) e nada. Entre uma tentativa e outra de ficar milionário, fiquei com vontade de fazer um pudim. É, de chocolate. Era fácil. Ficou pronto, ficou bom, todos comeram e elogiaram. Matei minha fome e todos ficamos felizes.

Felizes?! Era isso? A felicidade era um pudim de chocolate? Não, não exatamente. Bom, também...

Não é fácil explicar, embora seja algo simples. Além do mais, felicidade não se explica, se sente, e ela está nas pequenas coisas... nas pequenas grandes coisas da vida. Coisas que são tão importantes e, no entanto, tão simples. É fácil descobrir: é mais ou menos aquilo que você sente quando conclui um quebra-cabeça de duas mil peças, quando o feriado é na terça, quando alguém te escreve uma carta, quando te dão um abraço apertado, quando acaba de sair do banho, quando encontra algo que estava perdido, quando reencontra um velho amigo, quando ganha aquilo que tanto queria, quando chega na escola e descobre que a prova foi adiada, quando volta da escola e descobre que o almoço é o seu prato preferido, quando ouve aquela música antiga que você adora, quando dança coladinho com "aquela pessoa", quando termina de ler um livro grosso, quando tira dos pés aqueles sapatos apertados, quando as pessoas te dizem obrigado, quando faz uma viagem e volta cheio de novidades, quando anda na chuva despreocupado, quando consegue o emprego, quando está deitado no colo e recebe um cafuné, quando ganha uma amostra grátis no supermercado, quando passa num exame, quando vê um filhotinho frágil com a mãe, quando a televisão volta do conserto, quando finalmente consegue abrir aquele maldito pote de azeitonas, quando alguém coça as suas costas, quando fazem massagem nos seus ombros, quando pode raspar com o dedo o resto da massa na batedeira, quando você descobre no seu bolso uma nota que não sabia que tinha, quando nasce seu filho, quando segura o bebê, quando lembra do seu velho pai, quando passa a noite inteirinha acordado e vê um amanhecer rosado, quando uma pessoa especial está te fazendo um carinho de leve...

...e chora quando diz sorrindo o quanto te ama...
...e você também ama essa pessoa...
...e, então, você descobre que é feliz.

Simples.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Anônimos

Muito bem, minha estratégia de marketing deu certo. Saí divulgando meu blog entre muitos dos meus amigos, principalmente pelo orkut, e agora tenho o prazer de informar a todos que, em menos de uma semana de existência, já tenho ao menos dois leitores anônimos!!! E o melhor é que gostaram do que leram! Bacana, não?

Então, venho aqui agora, neste post, agradecer pela presença e principalmente pelos comentários dos anônimos. Contudo, seria muito legal saber quem vocês são, me dar a chance de retornar esta atenção... Isso se quiserem, claro.

Aguardo futuras manifestações, meus prezados leitores e minhas prezadas leitoras. Me contatem pelo orkut se quiserem (se pesquisar por Marcos AM Ramos, eu sou o primeiro da lista), me mandem e-mail se preferirem.

Obrigado pela atenção e pelo carinho de todos. Voltem sempre! Novo post em breve. Até.

Invisível

Segue o meu raciocínio: no escuro total não se enxerga nada, certo? Isso porque, descontando a obviedade de olhos devidamente funcionais, só podemos enxergar devido à luz: ela bate no objeto, reflete para nossos olhos e entra trazendo a imagem, que é invertida e reflete no cristalino (até onde eu sei, leigo que sou). É esse reflexo que nosso cérebro interpreta, fazendo com que enxerguemos a imagem direitinho. Até aí, tudo bem.

Pois bem, como só podemos enxergar aquilo que reflete luz aos nossos olhos, teorizo que se a luz atravessar uma substância absolutamente transparente, que não reflita nem um raiozinho sequer, essa substância será invisível, certo? Bom, se houvesse um homem invisível, isso se deveria ao fato de que a luz atravessaria direto por todas as suas células, certo? E se a luz atravessa as células do homem invisível sem fazer um desvio, ela não será invertida pelos olhos e nem refletir imagem alguma no fundo do cristalino de seus olhos, certo? Logo, se houvesse um homem invisível, ele seria cego. E aí, qual é a vantagem em ser invisível quando exatamente TUDO se torna igualmente invisível?

O mundo é invisível aos olhos do homem invisível.

Cartola

Ontem, véspera do feriado de 1º de maio, saí do trabalho e fui ao cinema. Tinha na cabeça que queria ver ou "Cartola" - por gosto próprio - ou "O Segredo" - porque têm falado muito e fiquei curioso -, e me mandei pro Unibanco Arteplex, um cinema que adoro, tem uma ótima livraria e tem história na minha vida.

Peguei o metrô na Uruguaiana e cheguei em Botafogo lá pelas 19hs, mas além de o Arteplex estar cheio, nenhum dos filmes que eu queria estava em cartaz. Não encontrei ninguém conhecido. Voltei, seguindo para o Botafogo Praia Shopping, mas lá, embora mais tranqüilo, também não estavam em cartaz minhas opções cinematográficas. Também lá não encontrei ninguém conhecido.

Pegando o metrô de novo, desci no Largo do Machado e fui no São Luiz, que estava deserto, mas igualmente não exibia os tais filmes. Outra vez, não encontrei ninguém que eu conhecesse. Voltei ao metrô (estão notando um padrão?) e saltei na Cinelândia, quase desistindo, quando lembrei que ali tem o Palácio e o Odeon. Finalmente, estava passando "Cartola" no Odeon, e fiquei por lá mesmo. A ironia é que eu tinha saído do Centro, onde trabalho, ido para Botafogo, depois pro Largo do Machado, pra finalmente encontrar o filme que eu queria assistir... no Centro!!! Ok, pode me chamar do que quiser...

"Cartola" cumpre principalmente o papel de ser um documentário sobre a vida boêmia do Rio de Janeiro, da Lapa, do Centro da cidade dos anos 40, 50, 60 e 70. Mostra um homem capaz de criar belas canções de letras sinceras, mas que jamais conseguiu segurar dinheiro, que escapava pelos seus dedos como areia. Sabia que mesmo já velho e famoso ele chegou a trabalhar em garagem e como contínuo de repartição? Coisas da vida. Da vida do Cartola. Muitas entrevistas da época, declarações do próprio, histórias sendo contadas. Só acho que deveriam ter colocado legendas, não entendi um terço do que era dito nas gravações prejudicadas pelo tempo...

Por fim, gostei de ver o registro de um homem que tinha mais coração do que juízo, que perdeu tudo (esse "tudo" é relativo) já velho e foi morar com a esposa na casa do pai. Na minha opinião, o momento mais belo do filme acontece quando ele pergunta ao pai o que quer ouvir, e o pai pede "O Mundo É Um Moinho", a qual é tocada na íntegra, ali, diante dos nossos olhos e para o deleite de nossos ouvidos e de nossos corações. Saí do cinema com a sensação de dever cumprido, de ter atendido à solicitação da minha alma. É verdade que o documentário poderia ter sido bem melhor e mais completo, mas valeu mesmo assim.

E nem no Palácio, nem no Odeon, eu também não encontrei alguém que eu conhecia.