sábado, 4 de fevereiro de 2012

Microconto #2


Chegou em casa e foi checar seus e-mails. Além dos spams, a única mensagem nova era dele mesmo, enviada do trabalho para seu endereço pessoal. Era pra não esquecer de levar quentinha no dia seguinte, pois seu almoço de aniversário foi cancelado. Os convidados tinham um a um confirmado que não iriam. Todos tinham uma desculpa e todas as desculpas eram falsas. Ele nunca teria certeza disso, é claro, mas pensou a respeito e teria se sentido pior se, no fundo, não soubesse que são esses pequenos pedaços compartilhados de breves solidões alheias que provam que as vidas dos outros não são lá tão diferentes da sua, por mais que se esforcem para fazer parecer o contrário.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Reflita #1


Quem não se faz presente vira passado.
Sem aspas, sem itálico, sem negrito. Simples assim.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Microconto #1


Primeiro era a tristeza de querê-la e não tê-la. Depois foi a sofreguidão de tentar conquistá-la. Conquistando-a, passou a viver o medo constante de perdê-la. Tanto temeu que a perdeu, e agora prova a dor diária de não conseguir esquecê-la. Tenta substituí-la de quando em quando, não percebendo que segue sempre sua mesma história, trocando apenas as personagens, e pensa: "elas... elas são todas iguais".

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Personarium


A minha pergunta é: será que se zangaram porque sumo do blog e fico meses sem escrever?

A minha dúvida é: mas, será que mais alguém deu a mínima pra isso?

A pergunta de vocês talvez seja: por que você desaparece e fica tanto tempo sem publicar?

A minha resposta é: não sei.

Não sei. Não há resposta. Talvez preguiça. Talvez bloqueio intelectual, crise criativa. Talvez a fase turbulenta no trabalho, a fase confusa na cabeça, culpa do sono irregular, culpa dos remédios, culpa do psiquiatra, culpa minha no fim das contas. Eu já gosto mesmo de culpar e assumir culpas, afinal, quem é inocente?

Se voltei hoje aqui foi por causa de um impulso irresistível de mostrar que não sou um personagem ou uma figura, nada novo criado por mim. Apenas o velho original de sempre.

Ainda não tenho histórias para contar, nem reais nem fictícias, mas se tem uma coisa da qual eu tenho certeza é que não gosto de auras místicas ou paredes ou imaginários ao meu redor. Não me agrada a ideia de ser visto por alguém que venha aqui como um ser possivelmente descrito como "o blogueiro", ou "o escritor", ou "o autor", "o poeta", ou qualquer outro nome mágico pelo qual alguns gostam de ser conhecidos. Andei vivendo uma realidade puramente virtual, e só eu sei o quanto tenho ganhado em superar estas paredes. Me agrada ser humano e ser conhecido por meu rosto, meus erros e acertos, sem ensaio! Me alegram as pessoas, os amigos, o contato, a conversa e o convívio! Por isso, depois de pensar um pouco sobre este passo, inspirado no fato de uma leitora/amiga ter me localizado, e numa tentativa de ser mais real do que as letrinhas deste blog possam permitir, me apresento:

Este sou eu fora da caixa: http://facebook.com/marcos.am.ramos

Quem quiser me encontrar nessa grande rede de pesca do diabo chamada facebook, é só ir lá me adicionar, ou simplesmente dar um subscribe no meu perfil. Devido à facilidade e à falta de maior comprometimento, escrevo uma ou outra ideia menor lá, com grande frequência, ao contrário das postagens neste blog, que costumam demandar maior reflexão, trabalho e inspiração da minha parte. Mas acreditem, um dia minha cabeça volta a funcionar como um dia funcionou, e ainda terei coisas interessantes a escrever aqui. Em breve, quem sabe?

Nunca se sabe.

A gente se vê.

domingo, 26 de junho de 2011

Socorra-se

Tradução da tatuagem: Você terá que salvar a si mesmo(a).

Estou quase sempre conectado ao facebook enquanto estou online. Eu gosto da interface, gosto da aparência e da dinâmica do site. Me exponho bastante lá e achava até que me expunha demais. Pra variar, observar o comportamento dos outros sempre dá uma luz sobre aquilo que penso de mim mesmo, e pelo visto sou um amador em matéria de auto-exposição.

O número de pessoas pedindo socorro através de suas mensagens é imenso. Geralmente em indiretas (?) para ex-amantes ou colegas de trabalho que pipocam entre frases depressivas ou relatos de uma vida cheia de vazios. Em geral, eu entendo perfeitamente esse tipo de atitude devido ao meu histórico e à minha própria inevitabilidade de transparecer meu estado emocional, mas acho que manter essa vibração repetitiva destrói o indivíduo se ele não se esforçar para mudar de direção. As ondas ressonantes alcançam os outros transmitindo uma sensação ruim, um mal-estar às vezes. Acredito que o erro está em contar com a iniciativa dos outros para melhorar seus dias quando seu esforço é pífio para abandonar uma romantizada auto-piedade.

Ficar publicizando seu sofrimento ao mesmo tempo em que sua auto-afirmação tenta propagandear suas qualidades acaba transmitindo uma mensagem confusa para os outros e, assim, a primeira e mais importante informação que você queria transmitir (que é "me liguem, me convidem, me chamem pra sair") se perde entre os disfarces e atrás das máscaras. Ao mesmo tempo, ninguém quer parecer fraco, carente ou dependente do carinho alheio, pois é fato que aqueles que enxergamos assim não costumam ser nossas primeiras opções como companhia.

Ah, mas você vai me dizer que você não é assim, né? Você dá companhia aos que estão na fossa, estende a mão aos coitadinhos, dá o ombro para chorarem rios. Não duvido que você seja assim, mas para mim o seu erro é se você espera que os outros sejam assim contigo. Não utilize-se como parâmetro para ninguém.

Por isso, quero dizer do fundo do meu coração a todos os que se encontram na merda: se virem. É isso mesmo, se virem, não contem com ninguém, não esperem pela ajuda divina ou terrena, pois ela dificilmente vem (eu queria escrever que ela nunca vem, mas a vida é muito cheia de histórias estranhas e, bem, nunca se sabe). Não joguem sobre as costas dos outros a responsabilidade pelas suas alegrias, sua felicidade. Eu já fiz isso na minha vida e sei que não adianta, não funciona e não compensa. A gente termina um relacionamento e pensa "depois de tudo que fiz por ela...", pois adivinha? Você fez o que quis e porque quis. Você fez de coração, e o que se faz de coração se faz desprovido da espera por retorno. Não espere nem por consideração, pois se "tudo aquilo" que você fez é condicionado à retribuição em qualquer nível que seja, então você não fez puramente por amor, fez por interesse: interesse no que poderia obter em recompensa, ainda que essa recompensa fosse apenas amor de volta. Acontece que tenho pra mim que o amor é uma via de mão única, ele independe, e por mais que seja maravilhoso receber amor em retorno, contar com isso (e perceber que isso muitas vezes não acontece) é o que traz toda essa dor e sofrimento.

Ajude-se, mova sozinho as engrenagens que você puder e, talvez, ao sair da inércia em que se encontrava, as pessoas se sintam mais voluntariosas a fazer com que todas as outras rodas dentadas entrem em funcionamento. Use seu facebook para escrever textos bonitos, contar histórias curiosas, divulgar vídeos ou músicas interessantes, ou mesmo para perguntar se a galera tá afim de fazer um programa X, mas tem que ser um programa que você fará ainda que sozinho, pois sempre há a possibilidade de nenhum dos seus 384 contatos responder ou de os 9 que responderem simplesmente darem bolo sem maiores explicações. Nada disso pode te afetar negativamente a partir do momento em que você sabe que esse é um mundo do contra.

Qualquer resposta negativa já era esperada. Qualquer reposta positiva é uma gratíssima surpresa! Não sou eu que estou dizendo isso, são os fatos, é a nossa experiência, é a vida como ela tem sido até o momento.

Faça a sua parte, eu faço a minha, qualquer hora dessas estaremos fazendo nossas respectivas partes em conjunto, mas não espere que eu faça a sua parte por você. Sua vida é sua responsabilidade, cuide bem dela pois ninguém vai fazer isso se nem você o faz.

quinta-feira, 2 de junho de 2011


Quero passar os últimos dias da minha vida lá, numa casinha minha que seja impecavelmente branca, cercada por campos de lavanda, num lugar onde só chova nos dias em que eu quiser tomar chá de baunilha. Quero ouvir músicas boas e decidir se canto junto.

Quero a companhia eterna da mulher que eu amar, que saibamos manter nossos silêncios quando percebermos que precisamos de nossas solidões momentâneas. Que nossos filhos crescidos venham vez ou outra nos visitar. Nossos netos ficarão para passar um fim de semana, um feriado, metade das férias até. Nossos animais de estimação serão quaisquer e serão queridos. Estaremos no interior, mas não estaremos longe do lago.

Quero que a cidade mais próxima com centro comercial seja modesta, limitando minhas possibilidades de escolha sobre o que vou comer, o que vou beber e com o que vou me perfumar, para que assim eu possa me concentrar em outras coisas que me tragam os prazeres reais. Quero que na praça haja uma boa banca na qual comprarei as revistas e os jornais. Quero que todo mundo me conheça pelo nome, e quero conhecê-los também. Espero que tenham motivos para sorrir pra mim ao me cumprimentar.

Quero acompanhar o anoitecer na varanda, sentindo o ar esfriar aos poucos, conversando com seja quem for sobre notícias, temas da vida, reflexões, ponderações, achismos, conclusões, recomendações e provocações. Teremos que acender um fogo para a fumaça espantar os mosquitos, mas tudo bem porque até que gostamos do cheiro da fumaça que vem daquelas palhas, daquelas madeiras. Alguns de nós terão que passar Autan, mesmo tendo acabado de sair fresquinhos do banho. As crianças vestirão pijamas e jogarão antigos jogos de tabuleiro. Elas perderão muitas pecinhas que jamais serão substituídas, pois nada se parece com aquelas pecinhas.

Dormirei o quanto quiser e acabarei desenvolvendo o gosto por acordar cedo, só para poder tomar café da manhã com o mundo ainda frio.

Então a minha vida toda terá valido a pena, porque cada dia vivido valeu a pena, e escreverei todas as histórias que me vierem à cabeça, até que a última, infelizmente, reste incompleta.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Descabido


De novo? É Sério? Nosso herói foi novamente derrotado? Então por que ele é o nosso herói? Acho que simplesmente por ele ser o protagonista da nossa história, o que é péssimo para nós, especialmente para mim. Estamos mal de herói por aqui.

Tudo começa quando nosso desavisado mocinho descobre que seu espírito ainda não perdeu por completo as forças e uma fagulha se transforma em choque que se transforma em uma corrente elétrica de milhões de volts com base em muito pouco pra começo de conversa e com base em absolutamente nada para perspectivas de um bom desfecho, mas ainda assim ele achou que conseguiria. Nesse ponto, já não sabemos se ele é muito burro ou muito ingênuo. Eu acho que é muito burro.

O que o nosso querido protagonista parece não ter entendido ainda é que peças triangulares não se encaixam em buracos redondos, aparelhos de 110v não devem ser ligados em tomadas de 220v, macarrão não pode ser feito em grelha e paredes não podem ser atravessadas se você simplesmente correr de encontro a elas. Veja bem, meu caro, ter esperanças pode até ser bonito, comum, natural e tal, mas ter esperanças de que você amanhã vai acordar com um peitoral atlético, olhos verdes, um par de asas nas costas e soltando laser pelas mãos é estupidez! Já narro suas histórias há muito tempo, não dá pra continuar desejando o impossível, pois o impossível é impossível, por isso ele é chamado de "impossível", sacou? O impossível não é uma barreira filosófica ou psicológica, ele é fato, camarada. De ovo de codorna não nasce morcego. Fato.

Como narrador, vou assumir aqui uma parte da responsabilidade, pois eu sabia bem o que estava acontecendo no grande cenário e até conseguia ver bem lá na frente, mas ainda assim não fui um bom aconselhador, não me fiz ouvir por você. Se trabalhássemos em conjunto poderíamos ter evitado muito erro, muita decepção, para ambos. Afinal, quando os espectadores sabem que o mocinho morre no final, ainda assim podem querer assistir a história por algum desejo mórbido de testemunhar a cena, mas quando o mocinho sabe que vai tomar uma surra e morrer, ele poderia pelo menos ter a opção de dar meia volta e dizer "tô fora, tchau procês que eu tenho mais o que fazer".

Mas, espere... algo me diz que, ainda asism, não é isso que você faria. Percebo algo diferente em seu olhar no espelho, algo que venho notando alterar-se aos poucos em nossas últimas aventuras, mas que agora está tão evidente. Você não faz mais questão de ceder, não é isso? Você agora se senta com um livro em hebraico nas mãos e passa as páginas lentamente e concentrado, mesmo não sabendo hebraico. Você pede um prato de camarões frescos e segura os talheres, mas fica encarando o prato sem comer nada, pois é alérgico a camarões. Você bota apenas uma bermuda e uma camiseta para ir à rua, mesmo estando no auge do inverno.

Você espera pacientemente que o livro comece a fazer sentido, ou o jogará na lareira para que seja útil de alguma forma.

Você desafia os camarões a apodrecerem diante de seu olhos, já que você não pode saboreá-los, e você sabia que faria isso desde o início.

Você encara o frio sobre sua pele e simplesmente não se importa, pois fará com que seu corpo o suporte, mantendo uma agradável e segura temperatura interna.

Você ficou escroto, ficou teimoso. Você agora pega o garfo e o entorta em colher, pois você precisa tomar uma sopa, e se o garfo não virar colher, você vai jogar fora o garfo e o prato de sopa e vai roer os próximos grãos de terra que a estrada jogar em seus dentes até que alcance a próxima paragem e se coloque novamente diante de uma refeição quente e bem temperada, e se for o caso, repetimos tudo de novo, desde o início.

Caríssimo herói descabido, cumpre a mim a missão de informá-lo que, ao que tudo indica, você está se tornando um anti-herói. Então prepare-se, pois de anti-herói pra vilão é um passo, e você sabe, os vilões costumam ser muito, mas muito mais interessantes.