domingo, 14 de agosto de 2016

Ensaio


Eu nem vi quando você espetou a sua casa aqui, quando você espalhou seu suor em mim, ameno, e mesmo assim... Eu nem vi quando você acordou as cortinas, descobriu meu quintal. Não se esqueça, por enquanto, de esquecer alguma coisa pela casa e vir buscar do nada.
Nem vi você chegar... Foi como ser feliz de novo. 
Nem vi você chegar... Foi como ser feliz. 
Ainda faz um tempo bom pra desperdiçar comigo. Podemos enfeitar domingos. 
Nem vi você chegar... Foi como ser feliz de novo.
Nem vi você chegar... Foi bom te ver sair de novo.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Dewoz


E se o único motivo pelo qual não conseguimos atravessar espelhos for o fato de nossos reflexos estarem do outro lado fazendo força igual e contrária para nos bloquear? E se estiverem fazendo isso para nos proteger, nos impedindo de atravessar para um mundo distorcido, corrompido e pernicioso? E se nós aqui pensamos que vivemos em um mundo distorcido, corrompido e pernicioso, será então que, na verdade, somos nós os reflexos das pessoas do outro lado do espelho e seguimos um instinto inconsciente, inevitável e irreprimível de protege-las impedindo-as de passar pra cá? Faria diferença sabermos de qual lado do espelho estamos?

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Preciso


Para quando você achar, enganado ou não
Que seu maior talento é ser muito bom
Exatamente em coisas que não prestam para nada
E seu maior defeito é ser bem o oposto

Acalme-se, aceite-se, azeite-se, aguarde

Porque na hora em que o circo pegar fogo
(e, acredite, ele sempre pega)
O trapezista não é de maior valia
Do que o palhaço que gira pratos no topo de varetas.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Mim


Um dia eu conto pra vocês sobre a noite em que sobrevivi à luta feroz que travei contra um tubarão
e um urso
e um tigre
e um leão
e um lobo
e um dragão
na minha cabeça.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Ode


Acordei cedo naturalmente pela primeira vez na vida, como se fosse a coisa mais natural da vida, como se fosse natural eu ter vida tanto quanto eu sentia que tinha, ali, ao seu lado. Você já estava acordada, me olhando como quem procura um erro, me emaranhando no pântano desses olhos. Não consegui te dar bom dia, eu não conseguia falar. Sua expressão sequer mudou, fora um lento piscar de olhos e um ajeitar de ombros para reencaixar o travesseiro que estava viciado da noite.

Não pude lembrar se estava na minha cama, no meu quarto, num fim de semana. Não pude enxergar referências porque não havia mais nada ao meu redor. Éramos nós e um perfume... um perfume novo, diferente, que não existe de verdade. Algo assim deveria valer uma grana, pensei, mas algo assim não tem um preço que se possa pagar.

Estiquei meu braço e passei as costas da minha mão em seu rosto, mais para tirar a dúvida de se você realmente estava ali do que pra te afagar, e me veio à mente uma ideia maluca de que agora dava para imaginar o que acontece quando se salpica canela numa rosa chá. Deve parecer assim, com você. Sem mais metáforas, deve ser bem assim mesmo.

Eu ia chegar na parte em que descrevo seus cabelos, mas você quebrou o silêncio com a boca ainda meio coberta pelo lençol de seja lá onde estávamos, e disse "tem uns fios brancos na sua barba", e eu disse "alguns", e o silêncio se recolocou.

Os dois olhos verdes agora baixavam-se e a testa franzia. As mãos pequenas e brancas puxavam mais lençol, mais lençol, mais lençol até que não deu mais. Nadou em minha direção, se encolhendo até que sua testa encostasse em meu peito, seu joelho em meu quadril, puxou meu braço para abraçar-se em mim. Não disse mais nada.

No mínimo que ainda faltava, me aproximei, colei meus lábios em seus cabelos e só então, finalmente, respirei.

Ninguém mais vai te fazer mal
I am here now

terça-feira, 5 de março de 2013

Existente


Sentado em sua baia, totalmente curvado, com a cara quase enfiada na caneca vazia que ele segura firme enquanto encara, vesgo, o fundo manchado por anos e mais anos de café. Pensa que devia reduzir seu consumo de carne vermelha. Pensa que não há saída. Pensa em como tem achado seu rosto inchado quando se olha no espelho ultimamente. Pensa que já é hora de cortar as unhas, mas que isso ainda pode esperar um pouco, afinal, nem estão tão grandes assim.

Por toda sua juventude, imaginou que alcançaria uma vida perfeita: sairia de casa aos 18, estaria casado aos 24, seria pai aos 28, teria um consultório só seu... não, um consultório não, um escritório... não, nada de escritório também: teria um atelier, um estúdio! Só seu. Seria renomado, reconhecido internacionalmente, talvez. Com sua fortuna, levaria uma vida boa e segura, construiria um orfanato e um asilo de qualidade, onde todos seriam sempre bem tratados, com dignidade. Com sua fama, espalharia nas mídias a conscientização de que o mundo pode ser um lugar melhor se todos passarem a se aceitar e se respeitar (uns aos outros e a si mesmos) exatamente do jeito que são. Talvez um dia ganhasse o prêmio Nobel da paz, seria muito merecido. Seria muito bom.

Mas tudo que seria não era o que é. Flagra-se ainda olhando fixamente para o fundo manchado da caneca vazia. Pensa que qualquer dia vai quebrar essa caneca acidentalmente de propósito só para poder comprar uma nova, sem manchas. Ergue suas costas lentamente, puxando toda a podridão do ar-condicionado central para dentro de seus pulmões e então, curvando-se para trás, abre os braços, se espreguiça, quase grita. Treme. Volta à posição em sua cadeira, como que se fechando sobre si mesmo. Esfrega os olhos só com as pontas dos dedos de uma mão, ajeita-se para a frente, mexe no mouse para acordar a tela. Olha ao redor, tenta lembrar quais são os prazos do dia. Os prazos os prazos os prazos os prazos os prazos. Olha através de dois corredores para que só então sua visão alcance uma janela, uma janela que tem vista apenas para as janelas espelhadas enfileiradas fechadas do edifício comercial em frente. Ele se imagina refletido nelas, mas não vê nada na verdade. Imagina alguém lá, olhando pra ele de volta. Volta-se para o computador, há prazos. Isso tudo o entorta cada dia um pouco mais.

E essa moça do café que não passa. Já vai dar onze horas.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Riscos*



"Finalmente acho que chegamos ao ápice", pensou Torquato, ao aprender que as pessoas deixam de se envolver com alguém por perceberem que esse alguém gosta muito delas. Vocês captaram o raciocínio? Há motivo melhor? É o seguinte: alguém gosta de você, você gosta desse alguém. Esse alguém chega pra você e se declara, diz que gosta muito de você, daí você pensa "não posso ficar com essa pessoa, ela gosta DEMAIS de mim, vai que depois dá tudo errado entre nós, nos separamos e ela vai ficar arrasada com o coração partido e blá blá blá... então é melhor não desenvolver". E aí, você não faz isso? Pô, como não? Super normal.

Ah, ninguém mais se regozijou TANTO quanto Torquato ao se dar conta da existência destes imensos corações de ouro! "Vivo em um mundo povoado por anjos", pensou ele. É uma preocupação tão grande com o próximo que você o impede (e acaba impedindo a si mesmo também) de "descobrir no que vai dar" por causa da possibilidade (probabilidade seria um termo melhor para a situação?) de tudo acabar mal no futuro próximo ou nem-tão-próximo ou imediato sabe-se lá, porra! Estamos falando de futuro.

Quando Torquato me passou suas impressões a respeito deste assunto, disse que resolveu escrever um tratado reivindicando o direito ao risco: que possamos viver as possibilidades que nos farão sofrer, chorar, lastimar, sentir falta e até mesmo odiar por alguns dias se for o caso.

Ele me chamou a atenção para o fato de que quem adota este comportamento "tão nobre" está cometendo dois graves erros. O primeiro (e óbvio) é que a dor já está sendo causada na outra pessoa simplesmente pela sua recusa, então você não a poupou de sofrimento algum. "Ah, mas se fosse mais tarde, a dor seria pior", alguém virá me dizer... Pois é aí que reside o erro mais sério: a dor da recusa é mesmo mais leve que a dor da separação, mas ao querer evitar o sofrimento do outro você está automaticamente impedindo o crescimento emocional de ambos, não dando à pessoa a vacina necessária para possíveis histórias de vida e experiências negativas que ainda virão (pois sempre existirão próximas e piores) e não desenvolvendo claramente em si mesmo a noção de culpa, se for o caso, para aprender a distinguir quando é que você tem mesmo culpa de algo ou quando a culpa é meramente das circunstâncias.

Então, pelo bem de todos, não sejamos egoístas no sentido profético da palavra. Arrisque mais e tema menos o desconhecido, pois ninguém tem nenhum controle sobre o que foi, o que é ou o que será. Dê-se as chances e dê chance a quem você acha que a merece, pois você nunca saberá se realmente tudo terminaria mal. Mas do seguinte eu tenho certeza: agindo assim, a única coisa que você está realmente evitando é a sua, ainda que considere remota, possibilidade de ser feliz.

*Texto publicado sem a autorização de Torquato (nome fictício)