domingo, 11 de setembro de 2016

Duskish


I.

Eu já fui o remédio de alguém

Ela dizia que eu era como uma mágica
e queria me ver toda semana
Exceto nas noites em que eu a queria ver
(nessas não)

Até que ela quisesse de novo
e fazíamos um sexo estranho
e ela terminava calada após o gozo
Virava para o lado e puxava meu braço
para que eu a abraçasse por trás
e demandava que eu o fizesse calado

Não, nenhuma palavra minha
Até que ela sussurrava um "desculpa"

Vinha para minha casa certas noites
Deitava completamente vestida
Casaco, jeans, tênis, tudo
Sem sexo naquela noite
Apenas virava para o lado, puxava meu braço
para que eu a abraçasse por trás
e demandava que eu o fizesse calado

E ela chorava baixinho
e eu não sabia o que fazer
Eu tinha 21

Nesse ponto eu já sabia
Ela era mal-assombrada
Havia um inquilino
Indesejado e profundamente desejado

Um amor por outro
Mas o corpo ali era o meu
O cara que estava lá aplacando a ausência do cara que não estava lá

Meu corpo tela de cinema
Voodoo/Consolo quente
Salvando a vida dela pouco a pouco
De um afogamento em si
Quando sentia-se nadando para o fundo
e me esticava o braço
e eu puxava com força
Nadando para a superfície
Boiando à tona
Abraçando ela por trás
Mudo calado

Nunca me senti humilhado
Nem menosprezado nem diminuído
Havia uma permuta clara ali
Recebíamos um do outro exatamente quase tudo que desejávamos

Eu fui seu remédio
O tratamento foi um sucesso
Nunca mais a vi


II.

Hoje lembro de mim mesmo
Que não gosto de tomar remédios

Fico mesmo é com os venenos que,
Descubro
Mesmo eles
Até eles
(ria comigo)
Puseram-se todos fora da validade


III.

Sempre gostei do amargo

Claro, prefiro o escuro
Prefiro um erro certo ao encantado
Prefiro o berro da verdade abrupta à anestesia de uma farsa a longo prazo

Há tempos perdi as frescuras
De um machismo que nunca me pertenceu
Possessividades e achismos
In-seguranças e certezas (razões nunca tive)
Morreram-se todas
Mas meu porte, minha barba, meu álcool e minha força
Ainda fazem de mim um clássico
De certa forma, um novo clássico

Não me tome como a um remédio, baby
Que estou mais para um vinho de garrafão

Se for pra ser assim, amor, eu quero
Mas se não for pra ser assim

Eu quero também

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

2:28


Hoje foi uma insônia daquelas raras, daquelas que já não tinham lugar aqui há um tempo.

Sou muito privilegiado, na verdade: subo uma ladeira, desço uma ladeira, chego numa praia.

Ótima fuga da vida entre salas comerciais e apartamentos nesta urbe. Não recomendo que você mergulhe nestas águas, mas pra tomar uma cerveja e bater um papo nos quiosques é bom. Digo, como se já não bastasse o simples fato de você estar na orla, ainda que na orla da baía e não do mar aberto, como lá/aí em Rio das Ostras.

Aqui é isso: insônia, caminhada na orla gelada às 2:28 da madrugada, água parada, areia imunda, luzes e neblina, solidão acompanhada, um quiosque aberto tocando forró brega, todo o resto já fechado. Não há o barulhinho bom e às vezes aterrorizante das ondas do mar aberto ameaçando retomar o mundo seco, não há breu real, não há maresia, não há vento que nos deixe doente, não há corujinha na rua, não há desertidão real, não há nem a presença nem a ausência de você. É como um vazio absoluto, uma total falta de estímulo de todos os lados, incluindo o lado de dentro, ou qualquer projeto de entropia, coisas que só Stephen Hawking entenderia, mas veja só, como é alto o preço a se pagar pelo entendimento de coisas assim.

Eu não trouxe casaco de propósito, queria sentir todo o frio que está fazendo aqui a essa hora. Quando vim, até que esperava encontrar certas coisas, certas pessoas, certos passados e certas situações, confesso, mas dei com os burros n'água, amor... Não encontrei nada nem ninguém. Todo o ambiente ao meu redor era um profundo reflexo do que eu levei pra caminhar na praia de madrugada.

Não é estranho ou contraditório que justamente quando me sinto mais fraco, me considero mais forte. Será que é? É? Por que sei lá, né... Tem gente que some por menos.

Por muitas vezes, quando dizemos "já superei essa história, tá de boas", o que realmente significamos por dentro é "já me acostumei a isso, vou seguir com minha vida". Então me diz se isso não é ser forte pra caralho, nêga?

domingo, 14 de agosto de 2016

Ensaio


Eu nem vi quando você espetou a sua casa aqui, quando você espalhou seu suor em mim, ameno, e mesmo assim... Eu nem vi quando você acordou as cortinas, descobriu meu quintal. Não se esqueça, por enquanto, de esquecer alguma coisa pela casa e vir buscar do nada.
Nem vi você chegar... Foi como ser feliz de novo. 
Nem vi você chegar... Foi como ser feliz. 
Ainda faz um tempo bom pra desperdiçar comigo. Podemos enfeitar domingos. 
Nem vi você chegar... Foi como ser feliz de novo.
Nem vi você chegar... Foi bom te ver sair de novo.

sábado, 13 de agosto de 2016

Shiraz


Entre os 3 dias que passei em Rio das Ostras e os últimos 6 anos que vivi no RJ, eu fico com os três dias.

"There's no easy way out", já dizia aquela trilha sonora de Rocky IV. Não há jeito fácil de se sair de uma história dessas.

Há um jeito correto e há um jeito covarde.
Há um jeito desejado e há um jeito que, bem, é aquele jeito que não tem jeito e você simplesmente tem que aceitar.
Mas jeito fácil? Esse não.

Não há pá que cave esse buraco, nem broca que perfure esse muro: tem que ser na unha mesmo. Vai na fé e na força, na raça e na coragem, não é porque existe dor que precisa haver sofrimento. Desta vez, Buda explica, Freud não.

...

Oi, tudo bem? Como você está? Como tem estado? Eu ando lendo um livro que eu paro pra ler outro ou ver um filme. Assinei Spotify desde que voltei daí, nem sei porque demorei tanto pra fazer isso, tenho ouvido tudo aquilo que você me pôs para ouvir de novo, também não sei porque demorei tanto para ouvir. Músicas boas, mas já escolhi minhas preferidas. Minha obsessividade tem falado bem alto esses dias, sobre tudo, e descontar na música ainda é o jeito mais saudável, acho.

Descontar no vinho deu um feedback negativo. Descontar no blog, até o momento não, mas é uma bomba-relógio, não é... Mais dia menos dia, você lembra daqui, vem e lê, daí quem sabe a gente fala sobre esse elefante que está na sala de estar. Mas não se engane, eu não me engano. Esse elefante é meu e sou contra animais em circos, então sem palhaçada, vamos apenas fazer uma mágica e domá-lo pois não tenho talento para o trapézio.

Você pode achar que não, mas vejo tudo daqui de dentro, daqui de cima, daqui de baixo. Esse é irmão desse (aponta para um olho após o outro), você sabe. Tem vezes que me pergunto como sei o que acho que sei e depois descubro que realmente sabia da verdade sei lá como, e respondo "não sei, apenas cogito, mas é cada palpite certo que cá entre nós, foi mal aí". Vou no candomblé desbancar o pai de santo e vou no shopping desbancar a cigana da loja. Eu consigo prever o presente, querida. Quem são os profetas na fila do pão?

Tô tomando Ômega 3, Piracetam, Lecitina de Soja, L-Carnitina, Spirulina, Cuidado, Juízo e Vergonha na Cara. Comprei tudo no Mundo Verde com meu ticket refeição, me deram de troco um duende de durepox e uma árvore de arame com pedrinhas, saquinhos de sal grosso e pimenta (começa a tocar Clube da Esquina em algum chalé em Lumiar).

Tô pensando em fazer um churrasco, vou chamar uma galera, uma caravela e uma jangada. Preciso voltar a mim agora. Às vezes fica tudo muito confuso, fico meio perdido e quando me perco fico me achando. Saudades eternas de você, amor. Senhora, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo. Um "oi" com uma piscadinha serve.

Preciso voltar pra fila do pão e tentar compreender, afinal, quem sou eu com esse cale-se de vinho na mão.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Ostras


Eu não devia ter voltado.

Ou eu não devia nem ter ido?

Não, eu devia ter ido sim... O correto é: eu devia ter ido sim e fui, e uma vez lá a vontade era de não voltar nunca mais, então eu não deveria ter voltado (point made), mas precisava (tinha que). Acho que é isso. Mas a questão não era estar lá "LÁ" por lá ser lá (digo, "aí"), era? Ou não só isso, claro que não, caralho! A questão era por eu estar contigo.

De novo. Só mais um tico, um tiquinho só.

E essa vida, essa vidinha imensa que você fabricou, cara... Cara! Você tem ideia? Você se maravilha com ela todos os dias assim também? Você botou essa vida no mundo e agora na minha vida também e agora quando é que eu vou poder ver aqueles olhos e sorriso, aqueles cachos loiros livres sob um gorro ou capuz, aquela animação que me fez correr e dançar, que me deu sangue e coração de novo? Que vida blé é essa que levarei sem o bú desse floquinho de luz de gente em cada santo dia, sem tê-la ao meu alcance, sem pega-pega nem pula-pula, sem ver a língua mais vermelha do mundo, sem velar seu sono num carrinho? Você dá e tira, dá e tira, é isso que você faz, nem sente que o faz, sempre foi assim, porra cara eu fico puto contigo, mas dessa vez eu te perdoo, e como perdoo. Tudo que você fez, no fim, foi me dar mais uma vida para proteger, cuidar e amar conforme me for permitido e requisitado, e assim o farei.

Quem sou eu, né: "dessa vez eu te perdoo", HA! Como se não me viesses sempre já pré-perdoada.
Por isso e por tudo e por nada. Pelo que foi e pelo que há de vir.

Até que ponto eu escolho?
Consegui ajudar em algo?
Pude?

Sobraram duas garrafas de vinho que infelizmente não esperarão. Uma está indo agora, pensei até que pararia nela mas ah, ledo engano! É terminar esta e a outra será aberta e hoje eu só durmo ao desmaiar que é pra cair de surpresa sem nem ver, já que em todas as noites o sono planejado não sai conforme o planejado e fico fritando na cama pensando pensando pensando pensando pensando pensando pensando pensando pensando porra caralho cu buceta pensando pensando pensando pensando pensando merda merda merda tô é muito do fodido sinceramente

Foi tudo tão bom que até o que era só bom era bom demais, e até o que era médio era muito bom, e mesmo o que não era nada bom ficava bom quando eu olhava pro lado e te via ali comigo. Dei tantas respiradas fundas e fiz cara de palerma tonto idiota... Encarei tanto e toda hora a tua barriga de fora como um cão faminto lambendo um osso, quase me evesgando tentando ser discreto, quase me cegando pela luz deliciosa que seu ventre emanava em meio a todas aquelas luzes artificiais, será que você viu? Viu nada, sei que tuas atenções estavam em outras coisas naquele momento, mas fostes gentil comigo ainda assim, sempre, e por isso eu sorria e sorrio ainda agora enquanto escrevo.

Me senti vivendo cada segundo, eu sorvia tudo que era possível da sua mera presença mesmo quando não estava me fazendo companhia. Dizem que quem poupa, tem, então guardei. Tô vivendo de poupança, minha querida, porque essa de matar um leão por dia não é bolinho, especialmente quando a gente se lembra da acepção de mais-valia. Mas vá lá, a questão é:

Teu cheiro não mudou, te falei isso? Em todos esses anos.
Não o teu perfume que eu gostava, tô falando do teu cheiro, o xêro da tua pele que me embriagava, me intoxicava... Sei que não falei porque não falei porra nenhuma.

E agora, sempre que eu me torrar no sol ao vento, e sempre que eu caminhar batendo um papo fácil e bom pela rua, e sempre que eu ouvir Liniker, Blubell, Trupe Chá de Boldo, 5 a Seco, Fino Coletivo, Luciano Salvador Bahia ou Chico Chico, e sempre que alguém me der uma piscada longa e lenta com um sorriso largo ou me olhar de baixo com olhos de ressaca enquanto traga profundamente um cigarro qualquer, e sempre que eu lembrar do que é a porra de um amor profundo pra caralho que não tem igual, bicho... Vou me lembrar de você.

Como se eu precisasse de ainda mais motivos para me lembrar de você.

Como se eu pudesse chamar de "lembrar de você" este maldito estado de não conseguir parar de pensar em você a cada silêncio que eu faço, olha, puta que me pariu...

A gente fica mordido, não fica?

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Dewoz


E se o único motivo pelo qual não conseguimos atravessar espelhos for o fato de nossos reflexos estarem do outro lado fazendo força igual e contrária para nos bloquear? E se estiverem fazendo isso para nos proteger, nos impedindo de atravessar para um mundo distorcido, corrompido e pernicioso? E se nós aqui pensamos que vivemos em um mundo distorcido, corrompido e pernicioso, será então que, na verdade, somos nós os reflexos das pessoas do outro lado do espelho e seguimos um instinto inconsciente, inevitável e irreprimível de protege-las impedindo-as de passar pra cá? Faria diferença sabermos de qual lado do espelho estamos?

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Preciso


Para quando você achar, enganado ou não
Que seu maior talento é ser muito bom
Exatamente em coisas que não prestam para nada
E seu maior defeito é ser bem o oposto

Acalme-se, aceite-se, azeite-se, aguarde

Porque na hora em que o circo pegar fogo
(e, acredite, ele sempre pega)
O trapezista não é de maior valia
Do que o palhaço que gira pratos no topo de varetas.