segunda-feira, 17 de setembro de 2007

GH



Essa é uma historinha do meu passado, acho que eu tinha 21 anos.

Ainda era verão, o que no Rio é meio difícil de definir, e me lembro de ter pensado que amava alguém, mesmo sem planos para o futuro. Parecia que iria chover, mas só relampejou, depois trovejou, depois não choveu. Fiquei esperando a chuva que não veio e, enquanto isso, lembrei que talvez não estivesse com dinheiro suficiente para um lanche, um guaraná e o ônibus de volta para casa, mas tinha meu caderno em mãos, um bloco de notas e uma caneta. Vários textos avulsos escritos através de páginas tortas que se rasgavam aos poucos da espiral, coisas que, no momento, enquanto lia, não reconhecia nem lembrava de ter escrito. Algumas coisas eram realmente engraçadas (ora essa, parabéns para mim!), mas outras eu me perguntava “cara, sei lá onde eu estava com a cabeça”. Talvez se eu tivesse múltiplas personalidades em minha mente elas poderiam discutir, chegar a um consenso e me dar uma opinião, mas só tenho duas. Elas não concordam em nada e não se falam direito. Uma vez tentei ajeitar as coisas, e agora elas também não falam direito comigo. Pelo menos aquela voz chata que vivia me dando ordens parou.

De todos os males, o menor. “Pelo menos estou em paz”, pensei. Pensei errado. Senti alguém chegar falando sozinho, murmurando, depois se aproximar de mim falando. Elas sempre chegam falando, essas tais “pessoas”.

- Boa noite.
- Boa noite.
- O bloco G é aqui?
- Não sei.
- É aqui que fica o curso de informática?
- Não sei.
- Você estuda aqui?
- Não.
- Mas você sabe onde tem outros blocos por aqui?
- Acho que subindo pra lá.

Apontei e ela (a pessoa) olhou pra onde apontei. Então resolvi emitir uma opinião.

- Acho que o bloco G é o último.
- O último? Mas tinham me falado que o bloco G divide as paredes da papelaria com o bloco H. Tem um bloco H depois.
- Então eu não sei. Mas é verdade, H vem depois de G.
- Tá... obrigada, hein...

A frase foi educada, mas o tom foi de aborrecimento. Eu apenas tentei ajudar, ué.

Moral da história: não fale com pessoas. Restrinja-se a falar com objetos inanimados, eles são bons ouvintes. Menos as maçanetas, elas costumam ser muito temperamentais e cheias de manias.

3 comentários:

mario elva disse...

Dizem que as verduras também são boas companhias. Nunca vi nenhuma delas sendo grosseira.

João Paulo Moreno disse...

prefiro bater um papo com as plantas. elas ainda têm a habilidade de concordar. mas só quando tem vento... nada muito complicado, a não ser que se procure alguma concordância em dias sem vento. De resto, prefiro escutar do que falar. sempre o mais prudente.

Anônimo disse...

Entao... pra que falar se vc pode simplesmente ficar olhando...pra que opinar se vc pode sorrir e acenar... bobagem essa coisa de achar que as pessoas tem ouvidos para serem usados, pior, para ouvir (hihihih)...