terça-feira, 5 de março de 2013

Existente


Sentado em sua baia, totalmente curvado, com a cara quase enfiada na caneca vazia que ele segura firme enquanto encara, vesgo, o fundo manchado por anos e mais anos de café. Pensa que devia reduzir seu consumo de carne vermelha. Pensa que não há saída. Pensa em como tem achado seu rosto inchado quando se olha no espelho ultimamente. Pensa que já é hora de cortar as unhas, mas que isso ainda pode esperar um pouco, afinal, nem estão tão grandes assim.

Por toda sua juventude, imaginou que alcançaria uma vida perfeita: sairia de casa aos 18, estaria casado aos 24, seria pai aos 28, teria um consultório só seu... não, um consultório não, um escritório... não, nada de escritório também: teria um atelier, um estúdio! Só seu. Seria renomado, reconhecido internacionalmente, talvez. Com sua fortuna, levaria uma vida boa e segura, construiria um orfanato e um asilo de qualidade, onde todos seriam sempre bem tratados, com dignidade. Com sua fama, espalharia nas mídias a conscientização de que o mundo pode ser um lugar melhor se todos passarem a se aceitar e se respeitar (uns aos outros e a si mesmos) exatamente do jeito que são. Talvez um dia ganhasse o prêmio Nobel da paz, seria muito merecido. Seria muito bom.

Mas tudo que seria não era o que é. Flagra-se ainda olhando fixamente para o fundo manchado da caneca vazia. Pensa que qualquer dia vai quebrar essa caneca acidentalmente de propósito só para poder comprar uma nova, sem manchas. Ergue suas costas lentamente, puxando toda a podridão do ar-condicionado central para dentro de seus pulmões e então, curvando-se para trás, abre os braços, se espreguiça, quase grita. Treme. Volta à posição em sua cadeira, como que se fechando sobre si mesmo. Esfrega os olhos só com as pontas dos dedos de uma mão, ajeita-se para a frente, mexe no mouse para acordar a tela. Olha ao redor, tenta lembrar quais são os prazos do dia. Os prazos os prazos os prazos os prazos os prazos. Olha através de dois corredores para que só então sua visão alcance uma janela, uma janela que tem vista apenas para as janelas espelhadas enfileiradas fechadas do edifício comercial em frente. Ele se imagina refletido nelas, mas não vê nada na verdade. Imagina alguém lá, olhando pra ele de volta. Volta-se para o computador, há prazos. Isso tudo o entorta cada dia um pouco mais.

E essa moça do café que não passa. Já vai dar onze horas.

7 comentários:

Flavia disse...

Um existente com tais sonhos já fez mais do que existir.

Marcos AM Ramos disse...

O personagem desta pequena crônica agradece pelo seu abraço sempre reconfortante, Flavia :)

Giselle Fleury disse...

Nunca é tarde para realizar sonhos da juventude, sendo que a experiência faz os objetivos alcançados terem um sabor bem melhor! (Olha o exemplo do Looper, que vi esse fds e adorei!!!)

Marcos AM Ramos disse...

Você está certa, Gi. Está mesmo. talvez o Nobel seja um pouco demais mas, bom, quem sabe?
Também gostei demais de Looper. Que bom que você gostou e conseguiu captar mais do filme do que muitos métodos a críticos por aí.

Marcos AM Ramos disse...

"métodos" não, metidos!

Elis Barbosa disse...

Fazia era tempo que não te lia. Bom, sempre bom. Fui lá e voltei, te visitei.

Amanda Reis disse...

Adorei... me descreveu... queria tanta coisa... nada aconteceu como eu planejava, parece que a vida me fala " quem manda aqui sou eu"... desisti de planejar e espero as coisas tomarem o rumo que devem tomar pedindo sempre para que as nossas vontades coincidam se possível.