segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Cinzento


Sexta passada, dia de finados. Sempre chove no dia de finados, mas nesse caso isso só foi verdade na madrugada de quinta pra sexta, pois o dia em si foi de sol, embora um sol estranho. Sexta, sábado e domingo de sol estranho, sol forte, chuva forte, mormaço e céu cinza, dias de um clima propenso à meditação e à reflexão, ou simplesmente a nada.

Da minha parte, eu queria ir à praia. Há muito tempo eu não caminhava descalço pela areia, nem parava pra olhar o mar. No fim das contas, fiquei sem paciência para me deslocar até Ipanema (quem me conhece sabe que é meu lugar preferido nesses casos), então apenas coloquei uma bermuda, meus chinelos e desci para a Praia da Bica, bem perto de onde moro. A praia é um lixo, e digo isso literalmente. A água é verde, a areia é repleta de restos de todas as coisas possíveis, incluindo cacos de vidro. Não me importei muito com isso, eu precisava andar descalço, sentir a areia por pior que ela fosse. A água é da baía de Guanabara, nada de ondas, ao menos não significantes. Suficientes talvez para serem saltadas em algum ritual de ano novo, mas eu sinceramente não recomendo entrar naquela água.

Não havia muita gente por lá nesses dias, pois o tempo estava muito instável. Especialmente no domingo, o céu ficou bem cinza, e eu caminhei por muito, muito tempo, indo de um extremo ao outro da praia pela areia deserta. No MP3, eu ouvia o álbum Love Story, do Lloyd Cole, repetido algumas vezes entre meus álbuns do Cartola, entre outros.

Nessa de andar e pensar e olhar, eu parava às vezes, olhava a ponte Rio-Niterói, e como já disse lá em cima, tentava refletir sobre o que fiz e também sobre o que faço, sobre o que senti e sobre o que sinto, e fiz uma revisão sobre algumas coisas que insistem em foder com a porra da minha cabeça e me fazem pirar. Mas então tinha sido exatamente pra isso que eu tinha ido caminhar na praia, não é? Domingo, tarde de céu muito cinza, absolutamente ninguém na areia além de mim. Foi então que eu me peguei pensando em nada, por alguns breves segundos. Consegui repetir esse feito por mais uns breves momentos depois, e me deu vontade de sorrir com aquele certo alívio, e descobri que preciso fazer isso mais vezes. Recomendo.

Desliguei e tirei o MP3 dos ouvidos, me sentei na areia que já estava meio fria e úmida, abracei minhas pernas e fiquei ali olhando pro outro lado da baía, pra água, pra ponte, pro céu, pro nada, e resolvi ficar daquele jeito até cansar. Pensei ter ouvido o celular tocar, mas foi só impressão. Serviu pra eu ver as horas, e era hora de ir. Eu já estava chegando de volta em casa quando trovões muito fortes trouxeram a chuva. Eu estava satisfeito com aquela tarde, cansado de tanto andar, mas bem disposto. Eu estava sujo de areia suja, pés amaciados e sujos pela areia, foi como eu pretendia que fosse. Eu não estava feliz, mas também já não estava triste, nem com dor de cabeça. Não estava satisfeito com as coisas, mas também já não estava contrariado. E finalmente, debaixo do chuveiro, eu parei e me dei conta de que eu simplesmente estava nada, e isso era bom.

“Found a little piece of nothing and I clung on
Because even nothing feels like something
When something's gone”



6 comentários:

Cátia disse...

Por vezes parar de sentir é tudo o que a gente quer...

Anônimo disse...

"É um cuidar que ganha em se perder"…
As vezes quando você pensa que perde ganha e quando você pensa que ganha perde...e eu, nem sei o que dizer!

Karina disse...

Seus textos sempre me fazem lembrar de alguma situa�o que eu vivenciei. Dessa vez, eu me lembrei que um dia eu quis n�o pensar em absolutamente nada. Mas eu tive que fazer um esfor�o tremendo... porque se eu ficava pensando que n�o podia pensar em nada ainda assim era pensar em alguma coisa. A� me concentrei at� conseguir me encontrar por breves instates no nada absoluto. Tamb�m tive vontade de rir, mas era uma rir quase que de medo.
Seus textoss�o t�o reais...

Bianca disse...

Penso que o 'nada' é sempre algo, quero dizer, não é o nulo, o zero. O 'nada' pra mim é, assim como a ausência, um preenchimento mais significativo. Ambos permitem traçarmos parâmetros de comparação, dizermos se ficamos melhor ou não. Esvaziar-se é, pra mim, um caminho para encontrar a paz.

João disse...

domingo de tarde é um período crítico... pelo menos pra mim. Tem horas que queria só apertar o pausa pra conseguir encontrar o que quero e correr pra onde quero. Mas não tem pausa. então fica tudo assim, no play mesmo. Quem sabe um dia não acho o botão..

Monique disse...

Achei ótimo esse texto,assim como todos os outros,pois tudo q vc escreve,é muito parecido com tudo q sinto e penso também!Apesar de não sermos próximos,lendo seus textos nos aproximamos pela semelhança de pensamentos.