sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
"Here With Me" - Dido
I didn't hear you leave
I wonder how am I still here
And I don't want to move a thing
It might change my memory
Oh, I am what I am
I do what I want
But I can't hide
And I won't go
I won't sleep
I can't breathe
Until you're resting here with me
And I won't leave
And I can't hide
I cannot be
Until you're resting here with me
I don't want to call my friends
For they might wake me from this dream
And I can't leave this bed
Risk forgetting all that's been
Oh, I am what I am
I do what I want
But I can't hide
And I won't go
I won't sleep
And I can't breathe
Until you're resting here with me
And I won't leave
And I can't hide
I cannot be
Until you're resting here
And I won't go
And I won't sleep
And I can't breathe
Until you're resting here with me
And I won't leave
And I can't hide
I cannot be
Until you're resting here with me
Oh, I am what I am
I do what I want
But I can't hide
And I won't go
I won't sleep
And I can't breathe
Until you're resting here with me
And I won't leave
And I can't hide
I cannot be
Until you're resting here
And I won't go
And I won't sleep
And I can't breathe
Until you're resting here with me
And I won't leave
And I can't hide
I cannot be
Until you're resting here with me...
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Lados
Petrarco aproveitou o feriado no litoral, caminhou no litoral.
Sentou-se na areia, viu o mar, mas não conseguiu chorar como gostaria, como queria, não estava acostumado. O sal lhe ardia os olhos e o vento secava possíveis lágrimas antes que tivessem qualquer chance de ser. Ventava muito naquele dia. Talvez devesse ter ido de manhã cedo. Concluiu que era muito preguiçoso, ou pouco prático, ou talvez simplesmente não dependesse dele.
Respirou maresia demais. Observou as meninas que jogavam frisbee. Ali, sentado, ouvindo o mar e o vento - e amaldiçoando o vento -, Petrarco questionou-se se as pessoas são mais receptivas a quem senta do lado direito ou do lado esquerdo delas. Não achou resposta e achou completamente irrelevante saber se há alguma, não via uso pra isso.
Pra que tanto?
Apenas ficar quieto, boa opção, um descanso pelo tempo possível. Seu coração, no entanto, parece não descansar jamais. Percebeu que era hora de ir quando seu dono se levantou e lhe puxou pela coleira.
domingo, 1 de novembro de 2009
"The Last Good Day Of The Year" - Cousteau
(Esta canção é dica do blog there's only 1 alice)
Don't tell me
That you get sick of living
When the summer's so forgiving although we have stolen
All of the things that we though we had owned then
Have disappeared
All these things in flavour
Won't do you no favours
When the summer's light is fragrant with scents of returning
You relent, you resent, now you're burning
For nothing to change....
There's something there...
(among the fallen fruit and flowers)
Won't rest
(only minutes, only hours)
Unless
(now the morning breaks in showers)
I guess
We'll remember this all of our lives
On the last good day of the year
All the leaves are turning
Autumn's fingers burnished
Furnished here in hope and in faith in the meantime
Kinda working my way through a dream I was having alone
Was having alone
There's something there...
(among the fallen fruit and flowers)
Won't rest
(only minutes, only hours)
Unless
(now the morning breaks in showers)
I'm left
With the north wind breathing down my neck...
On the last good day of the year...
There's something there...
(among the fallen fruit and flowers)
Won't rest
(only minutes, only hours)
Unless
(now the morning breaks in showers)
I guess
We'll remember this all of our lives
On the last good day of the year
(Obrigado, lebre do arrozal.)
domingo, 18 de outubro de 2009
Loucos
Antônio observava loucos. No ônibus, ficava quieto e quase imóvel, movendo apenas seus olhos para identificar os que surgissem ao redor. Uma senhora falava sozinha e sem parar, mas nada se ouvia do que ela dizia. Um senhor reclamava de tudo, absolutamente tudo, praguejando e chamando por Deus e Jesus Cristo vez ou outra. Uma menina meio emo, meio roqueira, meio qualquer coisa desse tipo fungava com frequência e ritmava fortes piscadas de olho com as fungadas que dava. Antônio achou que ela era lésbica e depois se perguntou por que achara que ela era lésbica, mas não soube responder, mesmo continuando a achar o que achou.
Assim, Antônio ia fazendo seu inventário dos loucos que encontrava pelo mundo. A velha que falava sozinha em silêncio, o velho que praguejava aos berros em nome de Deus e a lésbica que fungava e piscava de forma ritmada eram agora os novos listados e juntavam-se
- ao travesti coberto de talco que anda pela rua murmurando "que nojo, que nojo";
- ao homem que grita "SIM!" enquanto desenha anjos gigantes no asfalto com um pedaço de gesso;
- à bêbada que chora pelas ruas chamando por sua "mãezinha" e pedindo R$2,00 a todos que passam;
- a tantos outros.
Sua sala e seu quarto eram tomados por bloquinhos que catalogavam os loucos já encontrados, mas não havia como organizá-los em ordem alfabética, uma vez que não se sabia o nome de nenhum dos listados. Eram meramente empilhados em ordem cronológica, e isso frustrava Antônio.
Era uma tarde morna e Antônio voltava pra casa olhando as multidões de forma meticulosa, mas todos pareciam inesperadamente normais naquele dia. Lembrou de que precisava ir ao banco fazer um depósito ou sacar um dinheiro, não conseguia saber ao certo, mas apostou consigo que, chegando na agência, certamente lembraria do que fazer. Na fila, aguardava atento (quem sabe um louco lá talvez), mas a única coisa que chamou sua atenção foi a imensa bunda de uma senhora gorda que vestia uma justa calça de ginástica que não lhe caberia em qualquer outro contexto social que não fosse o do Rio de Janeiro. Perdeu-se tanto em devaneios ao olhar para aquela bunda disforme que sua demora foi suficiente para a mulher notar que era observada. Antônio deu-se conta quando já não havia mais o que fazer. A mulher virou-se com fúria e gritou "TÁ OLHANDO O QUE, Ô BABACA?!?!? VÁ OLHAR PRA TUA MÃE, SEU IDIOTA!!! SEU LOUCO!!!".
Antônio sentiu um choque gelado. Saiu do banco apressado, correu pelas ruas, chegou em casa bufando, suando. Avançou em direção ao primeiro de todos os seus blocos, o primeiro, onde tudo começou. Respirou. Pegou uma caneta. Respirou fundo. Escreveu, anotou, desabou sobre seus joelhos e libertou seu pranto em soluços.
Finalmente havia uma ordem alfabética. Finalmente, lá estava, grande e azul, imponente, a primeira...
... a letra "A".
"A", de Antônio: o louco que desperdiçava sua vida observando a vida dos outros loucos.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Quantas
Deve haver uma forma mais fácil, e se eu descobrir qual é, juro que na próxima vinda eu tento.
Dessa vez, agora, já foi. Eu até tinha achado que daria, que tinha como ser, repito para o meu reflexo no espelho do banheiro que o que se podia foi, de fato, tentado. No entanto, quando paro e fico olhando um pouco mais fixamente para o reflexo, ele levemente parece acenar que não.
Se TUDO o que se podia foi tentado? Foi sim, mas não foi alcançado. Se o resultado esperado foi mesmo o que aconteceu, impossível precisar, mas se ao menos foi o resultado honesto, talvez isso explique a serenidade que agora sinto diante de algo que é mais do que a escolha que fiz, mais do que o caminho que se desenvolveu naturalmente diante de mim: é o justo. Antes de dar o passo matinal que me levará para fora, levo a mão lentamente rumo à maçaneta antiga da porta da sala, já meio solta e com bastante folga, mas igualmente tão bonita em sua idade, e pergunto quantas mais. Quantas? Tantas.
Nas noites em que passo horas calado por falta de ter com quem falar e não como por não imaginar o que comer, deito tarde para dormir e percebo com mais clareza que o chão do quarto tem um leve declive, e que a cabeceira da minha cama (que não tem cabeceira, mas sim um lado escolhido para ser o da cabeça) fica na parte mais baixa. O sangue a mais que passa a visitar o cérebro ao longo da madrugada deve estar sendo o responsável pelos sonhos que ando tendo, nos quais aparecem todos ou quase todos que conheço, que estão ou que já estiveram na minha vida. Tenho sonhado com grandes grupos de pessoas, amigos e familiares. Estamos numa festa, num restaurante, numa casa de praia, na faculdade, na empresa ou em elevadores imensos e sem paredes... Inúmeros, incontáveis, tanta gente, pessoas em quem eu nem penso ao longo do dia, de quem sequer me lembrava. Aparecem todos juntos, interagindo até mesmo indepentes de mim, justo de mim, o sonhador, aquele que os sonha durante aquele espaço de tempo impreciso, aquele sem o qual nenhum deles estaria ali.
Nessa hora, meu ventilador de teto me atenta para o fato de que, a despeito do que eu imaginava, a vida não congela fora do meu campo de visão. "Mas como?", digo franzindo. Pois é. Surpresa surpresa: as pessoas com quem convivo continuam a fazer coisas quando não estão comigo. Isso inclui aquelas que um dia amei... Outras pessoas falam com elas coisas que não ecoam até onde estou, vivem amores que não compreendo, fazem cenas que não assisto e sentem perfumes que não provo. Existe um "depois" na vida delas, um depois onde deixo de ser o referencial de suas existências como de fato sou, aos meus olhos, enquanto estão comigo.
Agora, quase como um apóstolo Pedro crucificado, deito, durmo e sonho de ponta cabeça com multidões que interagem comigo mas também entre si. Suas personas sonhadas por mim falam-se coisas que não ouço e depois vêm me comunicar suas decisões, seus acordos aos quais eu estava alheio. Me abismo.
Meu abismo?
Esse ventilador de teto um dia vai me decaptar, ou cair cravando uma de suas pás em meu peito.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
AVISO!
Prezados leitores, está acontecendo algum erro com o blogger, mais especificamente relacionado ao link de comentários da postagem Apocalipses. Eu apenas recebi mensagem de erro bX-cdague, mas uma amiga me avisou que várias "janelinhas" começaram a pipocar na tela dela e ela ficou assustada, e com razão.
Caso percebam algo estranho ao visitarem o DEPOIS DO VERBO, não entrem em pânico (não se trata de vírus) e me avisem através de algum dos meios abaixo:
Gmail: ramosmarcos@gmail.com
Hotmail: ramosmarcos@hotmail.com
Orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Profile?rl=ls&uid=7822808101480001334
Já comuniquei à administração e assim que tudo estiver normalizado, aviso por aqui.
Obrigado a todos!
Caso percebam algo estranho ao visitarem o DEPOIS DO VERBO, não entrem em pânico (não se trata de vírus) e me avisem através de algum dos meios abaixo:
Gmail: ramosmarcos@gmail.com
Hotmail: ramosmarcos@hotmail.com
Orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Profile?rl=ls&uid=7822808101480001334
Já comuniquei à administração e assim que tudo estiver normalizado, aviso por aqui.
Obrigado a todos!
domingo, 13 de setembro de 2009
Apocalipses
Orestes foi carregado no ventre de sua mãe por exatos 9 meses, a precisão do parto era algum tipo de prenúncio para sua vida, uma vida certinha e nojenta.
Orestes foi filho único, um bom filho, primeiro neto e primeiro sobrinho. Largou as fraldas cedo e aprendeu a andar e a falar cedo, e sua primeira palavra foi "lua". No jardim de infância, passou incólume, a única criança que jamais foi colocada de castigo no cantinho. Na verdade, Orestes foi o único de sua turminha que contou em casa que a tia da escola fechava a boca dos coleguinhas castigados com fita crepe, o que ocasionou a demissão de Vera, a tal tia. Em casa o dia inteiro, Vera agora só tinha o seu próprio filho para castigar, mas essa é uma história que terminou muito triste e não vou contá-la aqui.
Voltando a Orestes, nós já o encontramos chegando à classe de alfabetização devidamente alfabetizado por seu pai. Aquele teria sido, portanto, um ano muito chato na escola, não fossem os horários de recreio e a descoberta das diferenças entre os sexos no banheiro, afinal, eu-te-mostro-o-meu-e-você-me-mostra-a-sua sempre foi uma troca muito justa.
O primeiro grau nós vamos pular, pois foi um calvário. O segundo grau foi menos pior, mas vai ser pulado também. A grande questão é que Orestes se manteve apagado até os 22 anos, quando teve seu primeiro amor, perdeu seu primeiro amor, caiu em sua primeira depressão, entrou para um grupo de poetas que nunca o chamavam para suas reuniões, saiu desse grupo de poetas, fundou seu próprio grupo de poetas, encerrou seu próprio grupo de poetas porque ninguém quis fazer parte do grupo, caiu em suas segunda, terceira e quarta depressões e então já encontramos Orestes com 33.
Ele nunca chegou a se casar, nunca noivou, nunca sequer namorou firme. Achava que sua vida estava plena desde que tivesse cerveja gelada (ou mesmo morna) e acesso a putas caras em casas de massagem que consumiam seu salário e aquilo que deveria um dia se transformar em suas economias e uma casa própria. De repente, pensando em um futuro melhor, resolveu ir conhecer a Vila Mimosa, onde o sexo custava R$30,00. No caminho, encontrou um senhor que o pegou pelo braço e disse "o mundo vai acabar", a que Orestes respondeu "quando?", e o velho respondeu "em breve", e Orestes perguntou "o quão breve?", e o velho repondeu "muito em breve", e Orestes perguntou "muito em breve pode ser hoje?", e o velho respondeu "não sei, talvez".
Após rodar quatro vezes pelos becos da Vila Mimosa, Orestes avistou uma linda menina branquinha de cabelos pretos e molhados, mas quando se encaminhou a ela um paraíba surgiu do nada como algo que brotasse do chão e a pegou pra passar um papo. Ao seu lado, Orestes viu uma imensa negra em lingerie vermelha que exalava o perfume de sabonete de um banho recente e fresco, e a escolheu. O quarto era como um curral de azulejos brancos e um colchão de couro sintético muito rasgado. "Não tire suas meias", disse a imensa mulher. "Por que?", perguntou Orestes. "Apenas não tire as meias", ela respondeu. Paola era seu nome.
Havia todo um caos formado por muitos cheiros e sons e poucas cores vindas de pouca iluminação, assim eram as vielas da Vila Mimosa e isso invadia o curral onde estavam, mas de repente, silêncio. Orestes lá, aguardando, em pé, de meias, nada estranhou. Paola ainda buscava a camisinha em sua nécessaire quando levantou a cabeça com urgência.
- Ouviu um barulho? - disse Paola.
- Ouviu um barulho? - disse Paola.
- Ouviu um barulho? - disse Paola.
Foi assim que o mundo acabou, mas não para Orestes. Ao menos foi isso que eu entendi.
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