quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Intransferível


Mascarenhas era chamado de Mascarenhas por todos aqueles que o conheciam, assim, como se fosse um velho funcionário de uma repartição, mas era na verdade muito novo, trinta e tal, e não trabalhava em uma repartição. Ainda assim, ele era Mascarenhas, mesmo que nos últimos meses já não fosse mais sequer o resquício do que um dia imaginou ser, conclusão à qual chegou após vomitar de tanto que chorou naquelas noites insones intercaladas por dias ignorados no quarto trancado.

Ele pediu ajuda a Deus e, não sendo atendido (como já era de se esperar), pediu também ajuda ao Diabo, que o atendeu justamente o ignorando. Sentia tanta falta dela, tanta, queria chamá-la, procurá-la, conversar, barganhar, matar saudades de tudo que havia, aquelas coisas tão especiais. Eles sequer tinham tirado fotos juntos, não havia para onde olhar além de pra dentro de si, e esse foi o maior erro de Mascarenhas naqueles dias mofados.

Acontece que tudo cansa, e mesmo sendo inesgotável o sofrimento, esgotou-se o Mascarenhas. Saiu do quarto, tomou um banho longo e muito útil, bebeu muita água, vestiu-se e foi andar pelas ruas em busca de uma padaria onde pudesse parar em paz para tomar um café da tarde. Olhou detalhadamente para cada bunda feminina que passou revelando um contorno mais saboroso ou uma lingerie mínima, assim como olhou atentamente para cada decote, mas Mascarenhas é um romântico e jamais deixou de olhar de forma contemplativa para os rostos das donas daquelas bundas e daqueles decotes. Independente desses prazeres pequenos, o que ele procurou em todas foram as partes que, em conjunto, formassem ela. Não conseguiu.

Entrou numa igreja e chorou, sentado, abandonado num banco escolhido com cuidado. Voltou para casa mais leve e sem fome, olhou para sua estante, procurou um livro que lhe dissesse algo, mas como não achou nenhum, resolveu escrever um ele mesmo. Começou com um poema imenso e sem rimas, que virou um conto, que virou uma crônica, que começou a parecer uma autobiografia, que por fim virou um testemunho sobre ela ("ela"). Daí, ele... ele se deu conta, caiu em si, num misto de frustração e alívio e frustração de novo.

Num misto de frustração e alívio e mais frustração, Mascarenhas se deu conta de que aquela saudade não passaria jamais, não haveria solução, pois ele sentia falta de alguém que simplesmente nunca existiu. No fim das contas, ou no que levou ao fim, todas as memórias que existiam eram de uma mulher inexistente, uma que ela pareceu ser algumas ou muitas vezes, mas que era apenas isso, pura ilusão na qual Mascarenhas acreditou, só que então não mais. Ainda que a procurasse, ainda que ligasse, ainda que a encontrasse de novo, não encontraria de fato aquela de quem sentia falta, pois ela não era tal mulher, nunca foi. Ele amava uma personagem, uma projeção de seu desejo, mas o filme acabou. Agora, Mascarenhas lia os créditos e percebia a verdade. Triste verdade, no entanto.

Todos sempre carregaremos uma frustração ou mais em nossas vidas, Mascarenhas, e a sua é pelo menos essa: a certeza de sua incapacidade de livrar-se dessa saudade, pois o objeto dessa sua saudade jamais existiu em outro campo que não os seus próprios sonhos e anseios. Ah, Mascarenhas... Sente aí, deite aí e fique. Tenha ao menos você pena de si, pois ninguém mais terá.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

10


O DDV tem andado preguiçoso, eu sei. Há tempos não surge um post novo aqui, e nem é por falta de ideias, apenas a mais pura e legítima preguiça de passar para a tela o que se passa pela cabeça.

Mas eu não poderia deixar de vir aqui e desejar aos meus leitores e às minhas leitoras um FELIZ 2010!!!

É costume desejar que o ano novo seja melhor para nós do que o ano que passou, mas eu vou fazer um pouco diferente aqui:  desejo que nós sejamos melhores nesse próximo ano do que fomos em todos os que se passaram até agora.

A gente se vê ano que vem!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

"Here With Me" - Dido



I didn't hear you leave
I wonder how am I still here
And I don't want to move a thing
It might change my memory

Oh, I am what I am
I do what I want
But I can't hide

And I won't go
I won't sleep
I can't breathe
Until you're resting here with me
And I won't leave
And I can't hide
I cannot be
Until you're resting here with me

I don't want to call my friends
For they might wake me from this dream
And I can't leave this bed
Risk forgetting all that's been

Oh, I am what I am
I do what I want
But I can't hide

And I won't go
I won't sleep
And I can't breathe
Until you're resting here with me
And I won't leave
And I can't hide
I cannot be
Until you're resting here

And I won't go
And I won't sleep
And I can't breathe
Until you're resting here with me
And I won't leave
And I can't hide
I cannot be
Until you're resting here with me

Oh, I am what I am
I do what I want
But I can't hide

And I won't go
I won't sleep
And I can't breathe
Until you're resting here with me
And I won't leave
And I can't hide
I cannot be
Until you're resting here

And I won't go
And I won't sleep
And I can't breathe
Until you're resting here with me
And I won't leave
And I can't hide
I cannot be
Until you're resting here with me...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Lados


Petrarco aproveitou o feriado no litoral, caminhou no litoral.

Sentou-se na areia, viu o mar, mas não conseguiu chorar como gostaria, como queria, não estava acostumado. O sal lhe ardia os olhos e o vento secava possíveis lágrimas antes que tivessem qualquer chance de ser. Ventava muito naquele dia. Talvez devesse ter ido de manhã cedo. Concluiu que era muito preguiçoso, ou pouco prático, ou talvez simplesmente não dependesse dele.

Respirou maresia demais. Observou as meninas que jogavam frisbee. Ali, sentado, ouvindo o mar e o vento - e amaldiçoando o vento -, Petrarco questionou-se se as pessoas são mais receptivas a quem senta do lado direito ou do lado esquerdo delas. Não achou resposta e achou completamente irrelevante saber se há alguma, não via uso pra isso.

Pra que tanto?

Apenas ficar quieto, boa opção, um descanso pelo tempo possível. Seu coração, no entanto, parece não descansar jamais. Percebeu que era hora de ir quando seu dono se levantou e lhe puxou pela coleira.

domingo, 1 de novembro de 2009

"The Last Good Day Of The Year" - Cousteau


(Esta canção é dica do blog there's only 1 alice)

Don't tell me
That you get sick of living
When the summer's so forgiving although we have stolen
All of the things that we though we had owned then
Have disappeared

All these things in flavour
Won't do you no favours
When the summer's light is fragrant with scents of returning
You relent, you resent, now you're burning
For nothing to change....

There's something there...
(among the fallen fruit and flowers)
Won't rest
(only minutes, only hours)
Unless
(now the morning breaks in showers)
I guess
We'll remember this all of our lives
On the last good day of the year

All the leaves are turning
Autumn's fingers burnished
Furnished here in hope and in faith in the meantime
Kinda working my way through a dream I was having alone
Was having alone

There's something there...
(among the fallen fruit and flowers)
Won't rest
(only minutes, only hours)
Unless
(now the morning breaks in showers)
I'm left
With the north wind breathing down my neck...
On the last good day of the year...

There's something there...
(among the fallen fruit and flowers)
Won't rest
(only minutes, only hours)
Unless
(now the morning breaks in showers)
I guess
We'll remember this all of our lives
On the last good day of the year

(Obrigado, lebre do arrozal.)

domingo, 18 de outubro de 2009

Loucos


Antônio observava loucos. No ônibus, ficava quieto e quase imóvel, movendo apenas seus olhos para identificar os que surgissem ao redor. Uma senhora falava sozinha e sem parar, mas nada se ouvia do que ela dizia. Um senhor reclamava de tudo, absolutamente tudo, praguejando e chamando por Deus e Jesus Cristo vez ou outra. Uma menina meio emo, meio roqueira, meio qualquer coisa desse tipo fungava com frequência e ritmava fortes piscadas de olho com as fungadas que dava. Antônio achou que ela era lésbica e depois se perguntou por que achara que ela era lésbica, mas não soube responder, mesmo continuando a achar o que achou.

Assim, Antônio ia fazendo seu inventário dos loucos que encontrava pelo mundo. A velha que falava sozinha em silêncio, o velho que praguejava aos berros em nome de Deus e a lésbica que fungava e piscava de forma ritmada eram agora os novos listados e juntavam-se
- ao travesti coberto de talco que anda pela rua murmurando "que nojo, que nojo";
- ao homem que grita "SIM!" enquanto desenha anjos gigantes no asfalto com um pedaço de gesso;
- à bêbada que chora pelas ruas chamando por sua "mãezinha" e pedindo R$2,00 a todos que passam;
- a tantos outros.

Sua sala e seu quarto eram tomados por bloquinhos que catalogavam os loucos já encontrados, mas não havia como organizá-los em ordem alfabética, uma vez que não se sabia o nome de nenhum dos listados. Eram meramente empilhados em ordem cronológica, e isso frustrava Antônio.

Era uma tarde morna e Antônio voltava pra casa olhando as multidões de forma meticulosa, mas todos pareciam inesperadamente normais naquele dia. Lembrou de que precisava ir ao banco fazer um depósito ou sacar um dinheiro, não conseguia saber ao certo, mas apostou consigo que, chegando na agência, certamente lembraria do que fazer. Na fila, aguardava atento (quem sabe um louco lá talvez), mas a única coisa que chamou sua atenção foi a imensa bunda de uma senhora gorda que vestia uma justa calça de ginástica que não lhe caberia em qualquer outro contexto social que não fosse o do Rio de Janeiro. Perdeu-se tanto em devaneios ao olhar para aquela bunda disforme que sua demora foi suficiente para a mulher notar que era observada. Antônio deu-se conta quando já não havia mais o que fazer. A mulher virou-se com fúria e gritou "TÁ OLHANDO O QUE, Ô BABACA?!?!? VÁ OLHAR PRA TUA MÃE, SEU IDIOTA!!! SEU LOUCO!!!".

Antônio sentiu um choque gelado. Saiu do banco apressado, correu pelas ruas, chegou em casa bufando, suando. Avançou em direção ao primeiro de todos os seus blocos, o primeiro, onde tudo começou. Respirou. Pegou uma caneta. Respirou fundo. Escreveu, anotou, desabou sobre seus joelhos e libertou seu pranto em soluços.

Finalmente havia uma ordem alfabética. Finalmente, lá estava, grande e azul, imponente, a primeira...

... a letra "A".

"A", de Antônio: o louco que desperdiçava sua vida observando a vida dos outros loucos.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Quantas


Deve haver uma forma mais fácil, e se eu descobrir qual é, juro que na próxima vinda eu tento.

Dessa vez, agora, já foi. Eu até tinha achado que daria, que tinha como ser, repito para o meu reflexo no espelho do banheiro que o que se podia foi, de fato, tentado. No entanto, quando paro e fico olhando um pouco mais fixamente para o reflexo, ele levemente parece acenar que não.

Se TUDO o que se podia foi tentado? Foi sim, mas não foi alcançado. Se o resultado esperado foi mesmo o que aconteceu, impossível precisar, mas se ao menos foi o resultado honesto, talvez isso explique a serenidade que agora sinto diante de algo que é mais do que a escolha que fiz, mais do que o caminho que se desenvolveu naturalmente diante de mim: é o justo. Antes de dar o passo matinal que me levará para fora, levo a mão lentamente rumo à maçaneta antiga da porta da sala, já meio solta e com bastante folga, mas igualmente tão bonita em sua idade, e pergunto quantas mais. Quantas? Tantas.

Nas noites em que passo horas calado por falta de ter com quem falar e não como por não imaginar o que comer, deito tarde para dormir e percebo com mais clareza que o chão do quarto tem um leve declive, e que a cabeceira da minha cama (que não tem cabeceira, mas sim um lado escolhido para ser o da cabeça) fica na parte mais baixa. O sangue a mais que passa a visitar o cérebro ao longo da madrugada deve estar sendo o responsável pelos sonhos que ando tendo, nos quais aparecem todos ou quase todos que conheço, que estão ou que já estiveram na minha vida. Tenho sonhado com grandes grupos de pessoas, amigos e familiares. Estamos numa festa, num restaurante, numa casa de praia, na faculdade, na empresa ou em elevadores imensos e sem paredes... Inúmeros, incontáveis, tanta gente, pessoas em quem eu nem penso ao longo do dia, de quem sequer me lembrava. Aparecem todos juntos, interagindo até mesmo indepentes de mim, justo de mim, o sonhador, aquele que os sonha durante aquele espaço de tempo impreciso, aquele sem o qual nenhum deles estaria ali.

Nessa hora, meu ventilador de teto me atenta para o fato de que, a despeito do que eu imaginava, a vida não congela fora do meu campo de visão. "Mas como?", digo franzindo. Pois é. Surpresa surpresa: as pessoas com quem convivo continuam a fazer coisas quando não estão comigo. Isso inclui aquelas que um dia amei... Outras pessoas falam com elas coisas que não ecoam até onde estou, vivem amores que não compreendo, fazem cenas que não assisto e sentem perfumes que não provo. Existe um "depois" na vida delas, um depois onde deixo de ser o referencial de suas existências como de fato sou, aos meus olhos, enquanto estão comigo.

Agora, quase como um apóstolo Pedro crucificado, deito, durmo e sonho de ponta cabeça com multidões que interagem comigo mas também entre si. Suas personas sonhadas por mim falam-se coisas que não ouço e depois vêm me comunicar suas decisões, seus acordos aos quais eu estava alheio. Me abismo.
Meu abismo?

Esse ventilador de teto um dia vai me decaptar, ou cair cravando uma de suas pás em meu peito.