quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Intruso
Pergunta filosófica básica e ridícula: quem somos nós?
Ok, é lógico que não vou seguir por essa linha (foi-se o tempo, hoje acho um saco), mas eu me peguei me perguntando exatamente isso dentro de um contexto bem simples. Quem me conhece sabe que eu bebo, gosto de beber, e recentemente ouvi uma opinião que me remeteu a algo que ouvi há uns 10 anos.
Qual a opinião? "Nossa, você bêbado é muito divertido!".
Uma amiga me disse isso há uma semana, e me lembrei que, aos 20 anos, uma namoradinha da época me disse "Você fica tão mais divertido quando bebe! Acho que gosto mais de você bêbado do que sóbrio". Claro que aquele namoro não durou muito, até porque costumo passar mais tempo sóbrio do que bêbado, mas considerando-se o que dizem do álcool - que relaxa os freios morais, derruba as barreiras psicológicas que nos impedem de fazer algumas coisas sobre as quais pensamos duas vezes antes e tal - fiquei curioso em saber quem seria o meu eu sincero, meu eu original: o sóbrio ou o bêbado?
O escondido atrás das cascas da reflexão ou o liberado pelos elixires alcoólicos?
O capaz de pensar sobre meus atos ou o impulsivo deturpado pela bebedeira?
O quieto e observador atento ou o brincalhão conversador e cambaleante?
Daí minha pergunta, pois não sei se alguém saberia dizer ao certo se o goró libera nossas verdades interiores ou se acaba com nosso senso de autocrítica, se ele deixa expor a pessoa em sua sincera plenitude de pensamentos e emoções ou se ele distorce o que já estava sendo sinceramente exposto.
Quem seria o intruso de quem neste estranho caso? Dr. Jekyll ou Mr. Hyde?
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Intrínseco
- Tenho.
- Duvido. Existe todo o resto entre nós! E aí? E o resto, e tudo que existe entre nós?
- Por favor, pare de repetir isso...
- Por que? Torno as coisas mais difíceis?
- É.
- Talvez porque eu esteja tentando fazer você enxergar?!?!
- Enxergar? Eu já enxerguei tudo muito bem há muito tempo!!!
- Você tá nervosinho, vou te dar um tempo pra pensar melhor, pra você se acalmar, depois a gente conversa com mais calma...
- Não vai haver "mais calma". A calma só virá com o tempo, muito tempo, tempo suficiente... No "agora", é isso como está, exatamente como se apresenta.
- Por que você faz assim? Você mesmo cria essas situações e depois fica se sentindo mal com isso... Já sabe como vai ser!
- Então talvez já esteja mais do que na hora de encerrar esse ciclo. Dessa vez, é fim. Precisamos terminar isso aqui. Não vamos repetir tudo como sempre.
- Isso é inútil, você sabe. Não vai dar em nada, por que fazer assim?
- Porque não dá pra evitar, essa é a minha verdade! Tô cansado de fingir pra mim que não importa, que consigo lidar com isso, que não me incomoda passar por isso de novo e de novo e de novo. Faz mal pra todos, pra nós dois, tem que parar.
- Então é assim?
- É... Tem que ser... precisa ser.
- E você não quer mais me ver, nem falar comigo?
- É melhor não.
- E você acha mesmo que vai segurar a onda, que não vai tudo se repetir de novo como sempre?
- Acho.
- Acha, não... Me diz: você tem CERTEZA disso?
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Interruptor
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Você já tinha voltado há um certo tempo, mas ela demorou para perceber. Você mesmo não tinha percebido até ela reparar que
- Você voltou. Há quanto tempo você chegou?
- Nem sei se eu devia estar aqui.
- Por que sumiu daquele jeito? Faltava pouco para o natal, não te vi mais, não nos falamos nos últimos dois meses.
- Desculpe, mas tem alguma coisa no meu sapato, acho que é uma pedrinha.
Enquanto sacode o sapato, você se pergunta se há sobras do almoço na geladeira. A geladeira faz um barulho estranho. Antes que você possa dizer, ela chega mais perto para saber se
- Você tá com fome? Sobrou um pouco de pernil, arroz e farofa do almoço.
- Era tudo que eu poderia querer.
- Tudo?
- Uma cerveja também.
Ela nem se moveu, apenas ali parada te olhando como quem lê um cartaz qualquer. Aproveite bem, pois o tempo que este olhar durar pode ser o tempo que falta, afinal, embora saiba que está para acontecer, você não sabe quando exatamente. Pode ser muito de repente, como saber? Pode ser a qualquer momento. Torça para que dê tempo ao menos de você dizer a ela que
- Vai acabar. Me dá sua mão só um instante e me ouve bem, olha nos meus olhos que é sério... Tudo vai acabar, mas não fica com medo, tá?
- Do que você tá falando? Da gente?
- Não. De tudo. Voltei com medo de que não desse tempo.
- Não brinca desse jeito, você parece maluco quando fala assim.
- E você sabe que sempre falo sério. Nunca tive senso de humor.
- Nunca teve.
- Pois é. Então...
- Você falava aquelas merdas, ninguém nunca deu ouvidos. Nem eu na maioria das vezes.
- Quando eu falava de açúcar salgado?
- E de fogo gelado, e de uma mosca engolindo sapos.
- E de chuva de guarda-chuvas, e de amor sincero.
- Amor sincero...
E vocês caem na gargalhada como há tempos não acontecia, mesmo na época em que você ainda estava aqui no antes. No agora, a gargalhada é doce, mas soa melancólica também. Vocês vão parando de rir aos poucos, ela enxuga uma ou outra lágrima enquanto ainda sorri bem leve. Você conseguiu mesmo, não é? Ela te olha, vocês em silêncio se olham. Nem perca seu valioso tempo perguntando se ela tem
- Alguém para quem você queira ligar?
- Daria tempo?
- Na verdade, não. Não sei. Acho que não.
- Então não. Só me abraça.
- Te abraçar.
- É, por que?
- Eu ia te pedir o mesmo.
Já não havia mais razões para poses nem planos. A qualquer segundo, você nem sabe como ou exatamente quando. Nem sabe se vai ter barulho que anteceda, luz colorida, brilho ou fumaça. Você sentado à mesa de jantar, ela encostada na pia. Vá em direção a ela, que ela já se afasta num impulso do mármore úmido. Esse longo caminho de dois metros, vocês anseiam pelo toque abandonado há meses, tomam seus últimos fôlegos, abrem seus únicos braços e se aproximam ansiosamente torcendo para que ainda haja temp
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Energia
Na sexta passada, a luz do "cantinho do computador", local do meu apê onde passo horas louvando ao nada, começou a tremer e queimou. "Lâmpadas queimam com o tempo", você pode dizer, "pode haver instabilidade na corrente", arriscaria ainda um experiente eletricista de cursinho pelo correio. Concordo, pode ser. Tudo "pode ser".
Nesta terça, dia seguinte ao meu aniversário, estava eu na sala jantando restos de bolo, os gatos ronronando ao meu lado, enquanto assistia ao Jornal Nacional com a TV no mute. Minha cabeça estava cheia demais para os fatos do dia, então eu ia criando minhas próprias notícias mentais enquanto via as imagens das matérias se revezando com closes dos âncoras. Por acaso, as tragédias não ficavam menos trágicas sem som, mas mantive assim.
Com o fim do bolo e o começo de mais uma seqüência de comerciais, fui à cozinha colocar o prato na pia (de difícil localização devido ao acúmulo da louça que data de 200 A.C.), quando ouvi um estouro vindo da sala.
A lâmpada da sala tinha simplesmente estourado. Não, não queimou. Estourou, explodiu, use o termo que você preferir, só sei que cacos de vidro se espalharam por sofá, chão da sala, chão do jardim de inverno, hall, porta do banheiro, enquanto os gatos olhavam curiosos, já devidamente escondidos, que não são bobos nem nada. Para eles, restava o susto e o pensamento de "mas que diabos foi isso?". Enquanto varria e catava os pedaços maiores, eu pensava em como era melhor no tempo em que as lâmpadas apenas queimavam. Depois eu me preocupo em retirar o que restou atarrachado no teto da sala, não tô afim de trocar isso agora.
Agora, só quero descansar, postar no blog e tentar entender isso. Isso e outras coisas, e torcer para que as próximas lâmpadas, de preferência, simplesmente queimem. Mas se forem estourar, que continuem ao menos esperando que eu saia do recinto. E por favor, poupem meus gatos.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Partes
Por que às vezes umas memórias involuntárias vêm à tona?
Estava eu trabalhando em um relatório chato hoje de manhã, quando do nada me veio a lembrança de um cheiro de plantas pequenas, como galhos de arruda e folhas de samambaia em vasos de vidro cheios d'água, o que me trouxe a imagem de um lugar da minha infância ao qual me lembro de ter ido várias vezes, estranhamente em dias chuvosos. Era uma lojinha de quinquilharias, dessas que vendem despertadores, bonecas baratas, flores de plástico, linhas de costura e chaveiros engraçados. Essa loja ficava na estrada do Galeão, na Ilha do Governador. Quem atendia lá era uma senhora japonesa, e quem me levava lá era a minha mãe.
O Galeão é um centro comercial da Ilha, então se você tem alguma coisa a fazer como ir ao médico, ao supermercado ou ao posto de gasolina, você vai pra lá. Acontece que mães nunca têm apenas uma coisa a fazer, e ao irem fazer as outras coisas além dessa uma coisa que nunca é a única, surgem outras coisas novas, dessas que pipocam nas mentes delirantes das mães enquanto elas olham as vitrines. Depois elas olham pra criança que levam pela mão. Depois olham uma certa vitrine. Olham criança, olham vitrine. Criança. Vitrine. Criança. Vitrine. Daí pra entrar com a criança naquela loja de seja lá o que for, não custa.
E nessa loja específica que voltou a mim esta manhã, eu entrava com minha mãe e olhava tantas coisas que me perdia em desejos. Muitas cores, cheiros, itens de utilidade questionável e qualidade mais questionável ainda, mas eu os queria. Então, de repente, eu que estava aqui me percebo mais de duas décadas atrás e me lembro de inúmeros potes de Geleca que eu ganhava, e de um boneco do Popeye de borracha contorcível com armação de arame por dentro, e do chaveiro que era uma pequena mão (também de borracha com arame dentro), e das imensas canetas com lanterna, e dos Aquaplays que mais cedo ou mais tarde vazavam sua água por todos os cantos, e dos ioiôs da Coca-Cola que nunca soube jogar direito, e dos óculos de natação (que eu adorava, embora não fizesse natação), e da motinho de fricção com um pequeno motoqueiro monocromático condenado a ficar montado nela pela eternidade, e do barquinho de plástico que tinha um pesinho de ferro no fundo para ficar reto ao flutuar, e das dezenas de flautas doces nas quais nunca aprendi a tocar algo além de "Asa Branca" (por que nunca "Assum Preto"?), e do revólver de espoleta (ah, o cheiro da pólvora estourada naquelas tirinhas de papel vermelho), e tantas outras coisas, muitas outras... Mas dessas eu não me lembro.
De repente fiquei quieto, e pensei nas coisas que nos constroem, as coisas e os fatos que fazem parte daquilo que vai virando a gente e a gente nem se dá conta. Por que isso me veio agora? Há um relatório que precisa ser terminado ainda hoje e enviado para a revisão do advogado. Há contas a pagar na hora do almoço. Há uma tensão nos ombros que me deixa preso.
Mas há também um Popeye contorcível, um chaveiro de mãozinha, uma Geleca, um Aquaplay, um menino com óculos de natação brincando pela sala em 1984... Sempre estiveram aqui e sempre estarão. Talvez nem sempre lembrados, mas agora eu sei, constantemente presentes.
sábado, 4 de outubro de 2008
O PREGO
Qual é a verdadeira dimensão das coisas? Qual a importância dos detalhes? Até que ponto é fato a teoria do caos, em que o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode gerar um furacão na Ásia? Eu não sei, não tenho respostas nem pra mim nem pra ninguém, mas acho interessante o pequeno poema abaixo, escrito por George Herbert em 1651 e originalmente intitulado "The Nail".
Pense nisso...
"O PREGO
Por falta de um prego,
perdeu-se uma ferradura.
Por falta de uma ferradura,
Perdeu-se um cavalo.
Por falta de um cavalo,
Perdeu-se um cavaleiro.
Por falta de um cavaleiro,
Perdeu-se uma batalha.
E assim um reino foi perdido.
Tudo por falta de um prego."
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