domingo, 9 de outubro de 2016

iiio


I.

Qual a metade do infinito?

Vinha tentando achar
Em vão
Pensando que deveria querer menos
O que quero infinitamente
Me deparando com um vazio
Encarando a metade do pleno como um pífio quase
E ninguém quer algo quase

Quase e migalha
Resto e sobra
Drogas pesadas
Satisfazem por um tempo
(porra, satisfazem por muito tempo até)
Mas a que custo...
Uma questão da necessidade
Da saciação, do alívio
Auto-preservação de quem não pode ter o que quer
E aceita ter o que pode
Esperando
Na esperança
Para ver quem cede primeiro:
O querer ou o querido
O verbo ou o objeto
A consoante muda ou a vogal átona


II.

Não fosse tortuoso esse caminho
Talvez os pensamentos na contramão fossem mais amenos
Mais ou menos
E, ainda assim, prefiro assim
Pois a estrada reta é repousada
Mas é chata
E ninguém quer algo chato

Quero é isso que me deixa tonto
Como os cigarros de quem começa
Como a transa encerrada em gozo
E o gozo seguido do cigarro
Antes de começar de novo

Sigo assim, amor
Entre o ócio e o esforço
Entre o banho e a cama
Entre um cigarro e outro
Meu infinito querer
Entre o zero e você

Me perco e
Não consigo ver o caminho
No caminho
Que sigo torto
Tonto
Tropeço
E percebo
Na verdade que
Eu não quero achar a metade
Eu só quero é achar um meio

E meio que não ligo
Se me perco
Encontrando você
Me basta


III.

Vem ver, bem
Que achei bonito e estranho
E me senti tão burro depois
Pois
Eu devia ter notado que
A metade do infinito é uma lágrima
Vazia

Dei as buscas por mim encerradas

domingo, 11 de setembro de 2016

Duskish


I.

Eu já fui o remédio de alguém

Ela dizia que eu era como uma mágica
e queria me ver toda semana
Exceto nas noites em que eu a queria ver
(nessas não)

Até que ela quisesse de novo
e fazíamos um sexo estranho
e ela terminava calada após o gozo
Virava para o lado e puxava meu braço
para que eu a abraçasse por trás
e demandava que eu o fizesse calado

Não, nenhuma palavra minha
Até que ela sussurrava um "desculpa"

Vinha para minha casa certas noites
Deitava completamente vestida
Casaco, jeans, tênis, tudo
Sem sexo naquela noite
Apenas virava para o lado, puxava meu braço
para que eu a abraçasse por trás
e demandava que eu o fizesse calado

E ela chorava baixinho
e eu não sabia o que fazer
Eu tinha 21

Nesse ponto eu já sabia
Ela era mal-assombrada
Havia um inquilino
Indesejado e profundamente desejado

Um amor por outro
Mas o corpo ali era o meu
O cara que estava lá aplacando a ausência do cara que não estava lá

Meu corpo tela de cinema
Voodoo/Consolo quente
Salvando a vida dela pouco a pouco
De um afogamento em si
Quando sentia-se nadando para o fundo
e me esticava o braço
e eu puxava com força
Nadando para a superfície
Boiando à tona
Abraçando ela por trás
Mudo calado

Nunca me senti humilhado
Nem menosprezado nem diminuído
Havia uma permuta clara ali
Recebíamos um do outro exatamente quase tudo que desejávamos

Eu fui seu remédio
O tratamento foi um sucesso
Nunca mais a vi


II.

Hoje lembro de mim mesmo
Que não gosto de tomar remédios

Fico mesmo é com os venenos que,
Descubro
Mesmo eles
Até eles
(ria comigo)
Puseram-se todos fora da validade


III.

Sempre gostei do amargo

Claro, prefiro o escuro
Prefiro um erro certo ao encantado
Prefiro o berro da verdade abrupta à anestesia de uma farsa a longo prazo

Há tempos perdi as frescuras
De um machismo que nunca me pertenceu
Possessividades e achismos
In-seguranças e certezas (razões nunca tive)
Morreram-se todas
Mas meu porte, minha barba, meu álcool e minha força
Ainda fazem de mim um clássico
De certa forma, um novo clássico

Não me tome como a um remédio, baby
Que estou mais para um vinho de garrafão

Se for pra ser assim, amor, eu quero
Mas se não for pra ser assim

Eu quero também

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Dewoz


E se o único motivo pelo qual não conseguimos atravessar espelhos for o fato de nossos reflexos estarem do outro lado fazendo força igual e contrária para nos bloquear? E se estiverem fazendo isso para nos proteger, nos impedindo de atravessar para um mundo distorcido, corrompido e pernicioso? E se nós aqui pensamos que vivemos em um mundo distorcido, corrompido e pernicioso, será então que, na verdade, somos nós os reflexos das pessoas do outro lado do espelho e seguimos um instinto inconsciente, inevitável e irreprimível de protege-las impedindo-as de passar pra cá? Faria diferença sabermos de qual lado do espelho estamos?

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Preciso


Para quando você achar, enganado ou não
Que seu maior talento é ser muito bom
Exatamente em coisas que não prestam para nada
E seu maior defeito é ser bem o oposto

Acalme-se, aceite-se, azeite-se, aguarde

Porque na hora em que o circo pegar fogo
(e, acredite, ele sempre pega)
O trapezista não é de maior valia
Do que o palhaço que gira pratos no topo de varetas.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Mim


Um dia eu conto pra vocês sobre a noite em que sobrevivi à luta feroz que travei contra um tubarão
e um urso
e um tigre
e um leão
e um lobo
e um dragão
na minha cabeça.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Ode


Acordei cedo naturalmente pela primeira vez na vida, como se fosse a coisa mais natural da vida, como se fosse natural eu ter vida tanto quanto eu sentia que tinha, ali, ao seu lado. Você já estava acordada, me olhando como quem procura um erro, me emaranhando no pântano desses olhos. Não consegui te dar bom dia, eu não conseguia falar. Sua expressão sequer mudou, fora um lento piscar de olhos e um ajeitar de ombros para reencaixar o travesseiro que estava viciado da noite.

Não pude lembrar se estava na minha cama, no meu quarto, num fim de semana. Não pude enxergar referências porque não havia mais nada ao meu redor. Éramos nós e um perfume... um perfume novo, diferente, que não existe de verdade. Algo assim deveria valer uma grana, pensei, mas algo assim não tem um preço que se possa pagar.

Estiquei meu braço e passei as costas da minha mão em seu rosto, mais para tirar a dúvida de se você realmente estava ali do que pra te afagar, e me veio à mente uma ideia maluca de que agora dava para imaginar o que acontece quando se salpica canela numa rosa chá. Deve parecer assim, com você. Sem mais metáforas, deve ser bem assim mesmo.

Eu ia chegar na parte em que descrevo seus cabelos, mas você quebrou o silêncio com a boca ainda meio coberta pelo lençol de seja lá onde estávamos, e disse "tem uns fios brancos na sua barba", e eu disse "alguns", e o silêncio se recolocou.

Os dois olhos verdes agora baixavam-se e a testa franzia. As mãos pequenas e brancas puxavam mais lençol, mais lençol, mais lençol até que não deu mais. Nadou em minha direção, se encolhendo até que sua testa encostasse em meu peito, seu joelho em meu quadril, puxou meu braço para abraçar-se em mim. Não disse mais nada.

No mínimo que ainda faltava, me aproximei, colei meus lábios em seus cabelos e só então, finalmente, respirei.

Ninguém mais vai te fazer mal
I am here now

terça-feira, 5 de março de 2013

Existente


Sentado em sua baia, totalmente curvado, com a cara quase enfiada na caneca vazia que ele segura firme enquanto encara, vesgo, o fundo manchado por anos e mais anos de café. Pensa que devia reduzir seu consumo de carne vermelha. Pensa que não há saída. Pensa em como tem achado seu rosto inchado quando se olha no espelho ultimamente. Pensa que já é hora de cortar as unhas, mas que isso ainda pode esperar um pouco, afinal, nem estão tão grandes assim.

Por toda sua juventude, imaginou que alcançaria uma vida perfeita: sairia de casa aos 18, estaria casado aos 24, seria pai aos 28, teria um consultório só seu... não, um consultório não, um escritório... não, nada de escritório também: teria um atelier, um estúdio! Só seu. Seria renomado, reconhecido internacionalmente, talvez. Com sua fortuna, levaria uma vida boa e segura, construiria um orfanato e um asilo de qualidade, onde todos seriam sempre bem tratados, com dignidade. Com sua fama, espalharia nas mídias a conscientização de que o mundo pode ser um lugar melhor se todos passarem a se aceitar e se respeitar (uns aos outros e a si mesmos) exatamente do jeito que são. Talvez um dia ganhasse o prêmio Nobel da paz, seria muito merecido. Seria muito bom.

Mas tudo que seria não era o que é. Flagra-se ainda olhando fixamente para o fundo manchado da caneca vazia. Pensa que qualquer dia vai quebrar essa caneca acidentalmente de propósito só para poder comprar uma nova, sem manchas. Ergue suas costas lentamente, puxando toda a podridão do ar-condicionado central para dentro de seus pulmões e então, curvando-se para trás, abre os braços, se espreguiça, quase grita. Treme. Volta à posição em sua cadeira, como que se fechando sobre si mesmo. Esfrega os olhos só com as pontas dos dedos de uma mão, ajeita-se para a frente, mexe no mouse para acordar a tela. Olha ao redor, tenta lembrar quais são os prazos do dia. Os prazos os prazos os prazos os prazos os prazos. Olha através de dois corredores para que só então sua visão alcance uma janela, uma janela que tem vista apenas para as janelas espelhadas enfileiradas fechadas do edifício comercial em frente. Ele se imagina refletido nelas, mas não vê nada na verdade. Imagina alguém lá, olhando pra ele de volta. Volta-se para o computador, há prazos. Isso tudo o entorta cada dia um pouco mais.

E essa moça do café que não passa. Já vai dar onze horas.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Riscos*



"Finalmente acho que chegamos ao ápice", pensou Torquato, ao aprender que as pessoas deixam de se envolver com alguém por perceberem que esse alguém gosta muito delas. Vocês captaram o raciocínio? Há motivo melhor? É o seguinte: alguém gosta de você, você gosta desse alguém. Esse alguém chega pra você e se declara, diz que gosta muito de você, daí você pensa "não posso ficar com essa pessoa, ela gosta DEMAIS de mim, vai que depois dá tudo errado entre nós, nos separamos e ela vai ficar arrasada com o coração partido e blá blá blá... então é melhor não desenvolver". E aí, você não faz isso? Pô, como não? Super normal.

Ah, ninguém mais se regozijou TANTO quanto Torquato ao se dar conta da existência destes imensos corações de ouro! "Vivo em um mundo povoado por anjos", pensou ele. É uma preocupação tão grande com o próximo que você o impede (e acaba impedindo a si mesmo também) de "descobrir no que vai dar" por causa da possibilidade (probabilidade seria um termo melhor para a situação?) de tudo acabar mal no futuro próximo ou nem-tão-próximo ou imediato sabe-se lá, porra! Estamos falando de futuro.

Quando Torquato me passou suas impressões a respeito deste assunto, disse que resolveu escrever um tratado reivindicando o direito ao risco: que possamos viver as possibilidades que nos farão sofrer, chorar, lastimar, sentir falta e até mesmo odiar por alguns dias se for o caso.

Ele me chamou a atenção para o fato de que quem adota este comportamento "tão nobre" está cometendo dois graves erros. O primeiro (e óbvio) é que a dor já está sendo causada na outra pessoa simplesmente pela sua recusa, então você não a poupou de sofrimento algum. "Ah, mas se fosse mais tarde, a dor seria pior", alguém virá me dizer... Pois é aí que reside o erro mais sério: a dor da recusa é mesmo mais leve que a dor da separação, mas ao querer evitar o sofrimento do outro você está automaticamente impedindo o crescimento emocional de ambos, não dando à pessoa a vacina necessária para possíveis histórias de vida e experiências negativas que ainda virão (pois sempre existirão próximas e piores) e não desenvolvendo claramente em si mesmo a noção de culpa, se for o caso, para aprender a distinguir quando é que você tem mesmo culpa de algo ou quando a culpa é meramente das circunstâncias.

Então, pelo bem de todos, não sejamos egoístas no sentido profético da palavra. Arrisque mais e tema menos o desconhecido, pois ninguém tem nenhum controle sobre o que foi, o que é ou o que será. Dê-se as chances e dê chance a quem você acha que a merece, pois você nunca saberá se realmente tudo terminaria mal. Mas do seguinte eu tenho certeza: agindo assim, a única coisa que você está realmente evitando é a sua, ainda que considere remota, possibilidade de ser feliz.

*Texto publicado sem a autorização de Torquato (nome fictício)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Reflita #3



Andando pelas ruas de um Rio de Janeiro outonal, me visita os pulmões um ar frio bom de se respirar. Encaro no alto um céu chumbamente cinza (ou cinzamente chumbo?, parecia tão sólido, agora molhou tudo, já são uns dias assim... enfim) e me pergunto sem pensar a respeito quantos dos prazeres que vivo não são nada além de alívios. Uns meros prazeres negativos, alívios transitórios. Transitórios e vazios, eu acho.

Quanto da paz de quem se afoga está em simplesmente voltar a respirar? Quanto está em perceber que sobreviveu? Eu ando respirando e sobrevivendo e disso eu sei. Me falta saber o que se tem que fazer pra se fazer da vida algo que valha a vida que se tem.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Alcances


Orcílio tinha uma voz amiga dentro de si, mas ela nunca lhe falara. Ela apenas ficava lá, habitando quieta sem bem um porquê, desconhecida, observando muda enquanto todas as outras gritavam e esperneavam e urravam sentenças de insegurança, frustração e pessimismo como loucas, girando desesperadas num escuro salão mental para ver quem o tiraria para dançar por fim.

Assim era. Mas se por um lado era ensurdecido por aquele baile nefasto, por outro Orcílio amava. Amava sem jeito, de longe, aquela garota. Enquanto calculava-se menos. Enquanto morria-se inseguro. Enquanto deixava-se cair, achando-se incapaz de chegar a ela, de um dia estar à altura dela. A quis por tanto, tanto tempo que chegou a deixar de querê-la até, resignado, contentando-se com o que podia ser, o que podia ter, o que podia, o que.

Mas o tempo passa estranho e Orcílio, já esgotado, relaxou, parou de se pressionar, parou de se exigir, se deixou ser quem é. Deixou a vida seguir e se deixou levar, e como numa dessas histórias em que a gente não acredita muito, um dia ela veio, a tal garota, e o pegou pela mão, e quis tentar. Orcílio viu espantado que seus fantasmas nunca tiveram razão, pois ninguém nunca esteve acima de ninguém, ninguém nunca foi "mais" que ninguém, ninguém foi jamais inalcançável. Não. Todos sempre estiveram exatamente lá, sempre foram o que são. É só que às vezes não nos enxergamos como deveríamos, sabe Orcílio... Às vezes não nos tocamos. Às vezes não nos permitimos. Às vezes não chutamos a porra toda pro alto. Às vezes por muitas vezes, até que cansamos e passamos a apenas ser mais do que tentar ser.

E só então aquela sua voz, aquela vozinha amiga lá do começo da história, se ergue dentre as outras, modesta porém imponente, e como quem fala com um sorriso de canto, sussurra de forma ecoante, de uma vez por todas: "eu sempre confiei em você".

sábado, 17 de março de 2012

Reflita #2



É preciso entender que se você procura uma pessoa com os valores A, essa pessoa vai ser maravilhosa, mas ela provavelmente vai te exigir os valores A em retorno. Só que você se comporta na base dos valores C, e começa a achar que a pessoa com valores A é muito exigente, daí seu saco enche, você dá um pé na bunda da pessoa com valores A e nem se dá conta de que, em primeiro lugar, exigente é você, e incoerente, que quer o que há de melhor mas não quer dar o melhor de si! Não aguenta o preço que se tem que pagar e depois fica reclamando. Faça um favor para si e para todos nós e resolva-se: ou você se torna uma pessoa melhor, ou aceita se resumir ao que lhe cabe, sabendo que o que lhe cabe é o que cabe a quem nivela a si mesmo por baixo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Microconto #2


Chegou em casa e foi checar seus e-mails. Além dos spams, a única mensagem nova era dele mesmo, enviada do trabalho para seu endereço pessoal. Era pra não esquecer de levar quentinha no dia seguinte, pois seu almoço de aniversário foi cancelado. Os convidados tinham um a um confirmado que não iriam. Todos tinham uma desculpa e todas as desculpas eram falsas. Ele nunca teria certeza disso, é claro, mas pensou a respeito e teria se sentido pior se, no fundo, não soubesse que são esses pequenos pedaços compartilhados de breves solidões alheias que provam que as vidas dos outros não são lá tão diferentes da sua, por mais que se esforcem para fazer parecer o contrário.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Reflita #1


Quem não se faz presente vira passado.
Sem aspas, sem itálico, sem negrito. Simples assim.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Microconto #1


Primeiro era a tristeza de querê-la e não tê-la. Depois foi a sofreguidão de tentar conquistá-la. Conquistando-a, passou a viver o medo constante de perdê-la. Tanto temeu que a perdeu, e agora prova a dor diária de não conseguir esquecê-la. Tenta substituí-la de quando em quando, não percebendo que segue sempre sua mesma história, trocando apenas as personagens, e pensa: "elas... elas são todas iguais".

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Personarium

A minha pergunta é: será que se zangaram porque sumo do blog e fico meses sem escrever?

A minha dúvida é: mas, será que mais alguém deu a mínima pra isso?

A pergunta de vocês talvez seja: por que você desaparece e fica tanto tempo sem publicar?

A minha resposta é: não sei.

Não sei. Não há resposta. Talvez preguiça. Talvez bloqueio intelectual, crise criativa. Talvez a fase turbulenta no trabalho, a fase confusa na cabeça, culpa do sono irregular, culpa dos remédios, culpa do psiquiatra, culpa minha no fim das contas. Eu já gosto mesmo de culpar e assumir culpas, afinal, quem é inocente?

Se voltei hoje aqui foi por causa de um impulso irresistível de mostrar que não sou um personagem ou uma figura, nada novo criado por mim. Apenas o velho original de sempre.

Ainda não tenho histórias para contar, nem reais nem fictícias, mas se tem uma coisa da qual eu tenho certeza é que não gosto de auras místicas ou paredes ou imaginários ao meu redor. Não me agrada a ideia de ser visto por alguém que venha aqui como um ser possivelmente descrito como "o blogueiro", ou "o escritor", ou "o autor", "o poeta", ou qualquer outro nome mágico pelo qual alguns gostam de ser conhecidos. Andei vivendo uma realidade puramente virtual, e só eu sei o quanto tenho ganhado em superar estas paredes. Me agrada ser humano e ser conhecido por meu rosto, meus erros e acertos, sem ensaio! Me alegram as pessoas, os amigos, o contato, a conversa e o convívio! Por isso, depois de pensar um pouco sobre este passo, inspirado no fato de uma leitora/amiga ter me localizado, e numa tentativa de ser mais real do que as letrinhas deste blog possam permitir, me apresento:

Este sou eu fora da caixa: http://facebook.com/marcos.am.ramos

Quem quiser me encontrar nessa grande rede de pesca do diabo chamada facebook, é só ir lá me adicionar, ou simplesmente dar um subscribe no meu perfil. Devido à facilidade e à falta de maior comprometimento, escrevo uma ou outra ideia menor lá, com grande frequência, ao contrário das postagens neste blog, que costumam demandar maior reflexão, trabalho e inspiração da minha parte. Mas acreditem, um dia minha cabeça volta a funcionar como um dia funcionou, e ainda terei coisas interessantes a escrever aqui. Em breve, quem sabe?

Nunca se sabe.

A gente se vê.

domingo, 26 de junho de 2011

Socorra-se


Estou quase sempre conectado ao facebook enquanto estou online. Eu gosto da interface, gosto da aparência e da dinâmica do site. Me exponho bastante lá e achava até que me expunha demais. Pra variar, observar o comportamento dos outros sempre dá uma luz sobre aquilo que penso de mim mesmo, e pelo visto sou um amador em matéria de auto-exposição.

O número de pessoas pedindo socorro através de suas mensagens é imenso. Geralmente em indiretas (?) para ex-amantes ou colegas de trabalho que pipocam entre frases depressivas ou relatos de uma vida cheia de vazios. Em geral, eu entendo perfeitamente esse tipo de atitude devido ao meu histórico e à minha própria inevitabilidade de transparecer meu estado emocional, mas acho que manter essa vibração repetitiva destrói o indivíduo se ele não se esforçar para mudar de direção. As ondas ressonantes alcançam os outros transmitindo uma sensação ruim, um mal-estar às vezes. Acredito que o erro está em contar com a iniciativa dos outros para melhorar seus dias quando seu esforço é pífio para abandonar uma romantizada auto-piedade.

Ficar publicizando seu sofrimento ao mesmo tempo em que sua auto-afirmação tenta propagandear suas qualidades acaba transmitindo uma mensagem confusa para os outros e, assim, a primeira e mais importante informação que você queria transmitir (que é "me liguem, me convidem, me chamem pra sair") se perde entre os disfarces e atrás das máscaras. Ao mesmo tempo, ninguém quer parecer fraco, carente ou dependente do carinho alheio, pois é fato que aqueles que enxergamos assim não costumam ser nossas primeiras opções como companhia.

Ah, mas você vai me dizer que você não é assim, né? Você dá companhia aos que estão na fossa, estende a mão aos coitadinhos, dá o ombro para chorarem rios. Não duvido que você seja assim, mas para mim o seu erro é se você espera que os outros sejam assim contigo. Não utilize-se como parâmetro para ninguém.

Por isso, quero dizer do fundo do meu coração a todos os que se encontram na merda: se virem. É isso mesmo, se virem, não contem com ninguém, não esperem pela ajuda divina ou terrena, pois ela dificilmente vem (eu queria escrever que ela nunca vem, mas a vida é muito cheia de histórias estranhas e, bem, nunca se sabe). Não joguem sobre as costas dos outros a responsabilidade pelas suas alegrias, sua felicidade. Eu já fiz isso na minha vida e sei que não adianta, não funciona e não compensa. A gente termina um relacionamento e pensa "depois de tudo que fiz por ela...", pois adivinha? Você fez o que quis e porque quis. Você fez de coração, e o que se faz de coração se faz desprovido da espera por retorno. Não espere nem por consideração, pois se "tudo aquilo" que você fez é condicionado à retribuição em qualquer nível que seja, então você não fez puramente por amor, fez por interesse: interesse no que poderia obter em recompensa, ainda que essa recompensa fosse apenas amor de volta. Acontece que tenho pra mim que o amor é uma via de mão única, ele independe, e por mais que seja maravilhoso receber amor em retorno, contar com isso (e perceber que isso muitas vezes não acontece) é o que traz toda essa dor e sofrimento.

Ajude-se, mova sozinho as engrenagens que você puder e, talvez, ao sair da inércia em que se encontrava, as pessoas se sintam mais voluntariosas a fazer com que todas as outras rodas dentadas entrem em funcionamento. Use seu facebook para escrever textos bonitos, contar histórias curiosas, divulgar vídeos ou músicas interessantes, ou mesmo para perguntar se a galera tá afim de fazer um programa X, mas tem que ser um programa que você fará ainda que sozinho, pois sempre há a possibilidade de nenhum dos seus 384 contatos responder ou de os 9 que responderem simplesmente darem bolo sem maiores explicações. Nada disso pode te afetar negativamente a partir do momento em que você sabe que esse é um mundo do contra.

Qualquer resposta negativa já era esperada. Qualquer reposta positiva é uma gratíssima surpresa! Não sou eu que estou dizendo isso, são os fatos, é a nossa experiência, é a vida como ela tem sido até o momento.

Faça a sua parte, eu faço a minha, qualquer hora dessas estaremos fazendo nossas respectivas partes em conjunto, mas não espere que eu faça a sua parte por você. Sua vida é sua responsabilidade, cuide bem dela pois ninguém vai fazer isso se nem você o faz.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Lá


Quero passar os últimos dias da minha vida lá, numa casinha minha que seja impecavelmente branca, cercada por campos de lavanda, num lugar onde só chova nos dias em que eu quiser tomar chá de baunilha. Quero ouvir músicas boas e decidir se canto junto.

Quero a companhia eterna da mulher que eu amar, que saibamos manter nossos silêncios quando percebermos que precisamos de nossas solidões momentâneas. Que nossos filhos crescidos venham vez ou outra nos visitar. Nossos netos ficarão para passar um fim de semana, um feriado, metade das férias até. Nossos animais de estimação serão quaisquer e serão queridos. Estaremos no interior, mas não estaremos longe do lago.

Quero que a cidade mais próxima com centro comercial seja modesta, limitando minhas possibilidades de escolha sobre o que vou comer, o que vou beber e com o que vou me perfumar, para que assim eu possa me concentrar em outras coisas que me tragam os prazeres reais. Quero que na praça haja uma boa banca na qual comprarei as revistas e os jornais. Quero que todo mundo me conheça pelo nome, e quero conhecê-los também. Espero que tenham motivos para sorrir pra mim ao me cumprimentar.

Quero acompanhar o anoitecer na varanda, sentindo o ar esfriar aos poucos, conversando com seja quem for sobre notícias, temas da vida, reflexões, ponderações, achismos, conclusões, recomendações e provocações. Teremos que acender um fogo para a fumaça espantar os mosquitos, mas tudo bem porque até que gostamos do cheiro da fumaça que vem daquelas palhas, daquelas madeiras. Alguns de nós terão que passar Autan, mesmo tendo acabado de sair fresquinhos do banho. As crianças vestirão pijamas e jogarão antigos jogos de tabuleiro. Elas perderão muitas pecinhas que jamais serão substituídas, pois nada se parece com aquelas pecinhas.

Dormirei o quanto quiser e acabarei desenvolvendo o gosto por acordar cedo, só para poder tomar café da manhã com o mundo ainda frio.

Então a minha vida toda terá valido a pena, porque cada dia vivido valeu a pena, e escreverei todas as histórias que me vierem à cabeça, até que a última, infelizmente, reste incompleta.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Descabido


De novo? É Sério? Nosso herói foi novamente derrotado? Então por que ele é o nosso herói? Acho que simplesmente por ele ser o protagonista da nossa história, o que é péssimo para nós, especialmente para mim. Estamos mal de herói por aqui.

Tudo começa quando nosso desavisado mocinho descobre que seu espírito ainda não perdeu por completo as forças e uma fagulha se transforma em choque que se transforma em uma corrente elétrica de milhões de volts com base em muito pouco pra começo de conversa e com base em absolutamente nada para perspectivas de um bom desfecho, mas ainda assim ele achou que conseguiria. Nesse ponto, já não sabemos se ele é muito burro ou muito ingênuo. Eu acho que é muito burro.

O que o nosso querido protagonista parece não ter entendido ainda é que peças triangulares não se encaixam em buracos redondos, aparelhos de 110v não devem ser ligados em tomadas de 220v, macarrão não pode ser feito em grelha e paredes não podem ser atravessadas se você simplesmente correr de encontro a elas. Veja bem, meu caro, ter esperanças pode até ser bonito, comum, natural e tal, mas ter esperanças de que você amanhã vai acordar com um peitoral atlético, olhos verdes, um par de asas nas costas e soltando laser pelas mãos é estupidez! Já narro suas histórias há muito tempo, não dá pra continuar desejando o impossível, pois o impossível é impossível, por isso ele é chamado de "impossível", sacou? O impossível não é uma barreira filosófica ou psicológica, ele é fato, camarada. De ovo de codorna não nasce morcego. Fato.

Como narrador, vou assumir aqui uma parte da responsabilidade, pois eu sabia bem o que estava acontecendo no grande cenário e até conseguia ver bem lá na frente, mas ainda assim não fui um bom aconselhador, não me fiz ouvir por você. Se trabalhássemos em conjunto poderíamos ter evitado muito erro, muita decepção, para ambos. Afinal, quando os espectadores sabem que o mocinho morre no final, ainda assim podem querer assistir a história por algum desejo mórbido de testemunhar a cena, mas quando o mocinho sabe que vai tomar uma surra e morrer, ele poderia pelo menos ter a opção de dar meia volta e dizer "tô fora, tchau procês que eu tenho mais o que fazer".

Mas, espere... algo me diz que, ainda asism, não é isso que você faria. Percebo algo diferente em seu olhar no espelho, algo que venho notando alterar-se aos poucos em nossas últimas aventuras, mas que agora está tão evidente. Você não faz mais questão de ceder, não é isso? Você agora se senta com um livro em hebraico nas mãos e passa as páginas lentamente e concentrado, mesmo não sabendo hebraico. Você pede um prato de camarões frescos e segura os talheres, mas fica encarando o prato sem comer nada, pois é alérgico a camarões. Você bota apenas uma bermuda e uma camiseta para ir à rua, mesmo estando no auge do inverno.

Você espera pacientemente que o livro comece a fazer sentido, ou o jogará na lareira para que seja útil de alguma forma.

Você desafia os camarões a apodrecerem diante de seu olhos, já que você não pode saboreá-los, e você sabia que faria isso desde o início.

Você encara o frio sobre sua pele e simplesmente não se importa, pois fará com que seu corpo o suporte, mantendo uma agradável e segura temperatura interna.

Você ficou escroto, ficou teimoso. Você agora pega o garfo e o entorta em colher, pois você precisa tomar uma sopa, e se o garfo não virar colher, você vai jogar fora o garfo e o prato de sopa e vai roer os próximos grãos de terra que a estrada jogar em seus dentes até que alcance a próxima paragem e se coloque novamente diante de uma refeição quente e bem temperada, e se for o caso, repetimos tudo de novo, desde o início.

Caríssimo herói descabido, cumpre a mim a missão de informá-lo que, ao que tudo indica, você está se tornando um anti-herói. Então prepare-se, pois de anti-herói pra vilão é um passo, e você sabe, os vilões costumam ser muito, mas muito mais interessantes.

domingo, 15 de maio de 2011

Incapazes


Simplesmente cheguei ao meu limite e não sei o que fazer, não sei como agir. Talvez assumir minha tolerância esgotada como em "Um Dia de Fúria", afinal, quem não sente vontade de fazer o mesmo que o Michael Douglas??? Olha só, não é tão difícil viver em sociedade, não é impossível fazer do jeito que tem que ser feito. Vamos direto às coisas a que me refiro:

- Todo dia no metrô, to-do-di-a, pessoas ficam na beirada da plataforma aguardando o trem chegar, e daí lá vem a voz já irritada (e em volume máximo) do carinha do metrô, pela milhonésima vez, avisando "NÃO ULTRAPASSE A FAIXA AMARELA, SOMENTE A ULTRAPASSE QUANDO O TREM ESTIVER PARADO E  COM AS PORTAS ABERTAS". Mas as pessoas continuam ultrapassando. E ouvem o aviso. E não se movem. Então tem que vir um dos guardas passando rente ao precipício, de porrete na mão, exigindo que as pessoas se afastem para trás da tal faixa. Elas se afastam, mas reclamam.

- Ainda no metrô, quem aguardava na plataforma insiste em entrar no vagão antes que as pessoas de dentro consigam descer em suas estações. Daí se empurram. Daí se xingam. Daí a galera se emputece, porque quem tá dentro não consegue sair, quem tá fora não consegue entrar, a porta não pode ser fechada porque tem gente bloqueando, o alarme de fechamento de portas fica berrando um tempão, o trem não consegue sair da estação... bem, vocês entenderam.

- Sinais de trânsito abrem. Sinais de trânsito fecham. Existe motivo pra isso, e cada uma dessas etapas dura o tempo que dura e pronto. Mas então aparecem elas, as pessoas, que não conseguem esperar o sinal vermelho para atravessar e correm entre os carros, mas, Ó, que surpresa: os carros são mais rápidos que elas, e estes então têm que frear bruscamente, e buzinam, e os outros se assustam, e quase batem, e assim todos quase se ferram feio, isso quando não se ferram feio de fato.

- Você não anda muitos metros pelo Centro do Rio de Janeiro sem que aviste uma lixeira laranja pregada em algum canto. Ela está lá para receber seus pequenos lixos cotidianos, simples e prática. Ainda assim, não se dá um passo no Rio sem que se avistem panfletos, maços de cigarro, copos de guaraná natural, garrafas d'água, embalagens de sorvetes ou de chocolates ou de balas ou da merda que for espalhados pelo chão.

- Não existe prestadora de serviços que respeite o consumidor, ao menos aqui no Rio não existe. Você tenta ser atendido pela CEG, pela CEDAE, pela LIGHT, pela OI, pela VIVO, pelas lojas de móveis, mas a ligação cai ou não completa, e quando você consegue agendar o serviço os caras não aparecem ou então aparecem num horário diferente do agendado, e quando finalmente fazem o serviço, o serviço fica mal feito, e quando você pede pra cancelar eles não cancelam e ainda te cobram valores errados... enfim, não tem fim.

Existem tantas outras coisas que eu poderia citar aqui, mas confesso que o cansaço é grande. Eu vou é pagar minhas contas, pegar minhas economias, me mudar pro campo, fazer de conta que sou mudo e trabalhar de ajudante numa mercearia de cidadezinha pequena. Quero ir embora e sentir o cheiro dos eucaliptos e do capim-limão, dormir cedo depois de prender o mosquiteiro na janela e descobrir que um dia tem mesmo 24 horas. Preciso esfriar a cabeça antes que eu arranje uma bazuca, e até onde se sabe, bastaria subir qualquer favela carioca e eu arranjaria uma, fácil fácil.

Caracóis


A vida pública dos homens-caracóis.

Houve um semestre em que dei aulas à noite, de segunda a quinta (sextas às vezes), e aos sábados o dia inteiro, num cursinho perto da Candelária. Terças e quintas, saía por volta das 21:40, seguia rumo à estação de metrô da Uruguaiana, e ao longo do caminho passava por pilhas de papel, pilhas de lixo, e o pior, por pessoas empilhadas como lixo.

Para quem não sabe, todas as noites vários grupos de moradores de rua e catadores de lixo reunem-se em pontos estratégicos do Centro do Rio de Janeiro esperando por outros grupos, estes por sua vez formados por pessoas que tiveram mais sorte na vida, os quais param suas kombis e descem com garrafas de água mineral, pão e sopa, muita sopa. O preço que os mendigos (e afins) pagam pela caridade não é muito mais do que se unir em uma rodinha e orar ao Senhor. Em resumo, sai barato.

O que eu via sempre e me chamava a atenção, no entanto, eram os homens e mulheres idosos ou jovens (mais fracos ou menos fracos) que chegavam, vestindo todas as roupas que tinham umas sobre as outras, procuravam lentamente por um canto seco (ou menos molhado, menos sujo), rodavam, voltavam, iam, retornavam e enfim paravam, mas durante todo esse ritual carregavam, em seus ombros e costas tortos e cansados, sacos, sacolas, bolsas, mochilas, trouxas, papelões imensos, enfim, tudo aquilo que possuem e que podem chamar de lar. A meu ver, são como homens-caracóis, tão publicamente ali às margens da Av. Presidente Vargas exibindo suas existências aos transeuntes, trazendo suas casas às costas mas incapazes de entrar nelas em busca de um minuto de privacidade e conforto que seja. Eles dormem, comem, urinam e defecam ali aos olhos de todos nós, os estranhos, que ficamos ainda mais estranhos fingindo que não vemos nada disso.

Atravessei este pântano ao menos quatro noites por semana, chegava ao metrô seguro, passava na roleta seletora, aguardava o trem rápido, entrava no vagão refrigerado, contava as poucas estações passarem e só então começava a me esquecer dos homens-caracóis que ficaram lá, aguardando. Não muito depois, deitava e dormia confortavelmente na minha cama. Mas não em paz.